JOSÉ CORREIA CALIXTO LIMA: O Guardião das Coisas que o Tempo Não Pode Levar

 

JOSÉ CORREIA CALIXTO LIMA: O Guardião das Coisas que o Tempo Não Pode Levar

Uma biografia de memória, arte, patrimônio e humanidade

21 de outubro de 1945 — 31 de julho de 2026 | Aracati — Ceará

Há homens que passam pela História.

Há outros que passam a vida impedindo que a História passe.

José Correia Calixto Lima pertenceu a essa segunda estirpe.

Artista plástico. Homem de cultura. Diretor. Presidente. Guardião de arquivo. Curador. Pesquisador da memória aracatiense. Morador do Cumbe. Interlocutor de historiadores. Defensor do patrimônio.

Mas nenhuma dessas palavras, isoladamente, consegue alcançá-lo.

Porque há uma parte de um homem que não cabe no currículo.

Há aquilo que fica no gesto.

Na conversa.

Na delicadeza.

Na maneira de olhar.

Na educação.

No carinho.

Na capacidade de fazer alguém se sentir acolhido simplesmente porque foi recebido com atenção.

E é justamente nessa interseção entre a História que os documentos registram e a memória que o coração conserva que José Correia Calixto Lima precisa ser lembrado.


O Jovem Zé Correia...

I — O HOMEM QUE NASCEU PARA PERTENCER À MEMÓRIA

José Correia Calixto Lima nasceu em 21 de outubro de 1945.

Sua trajetória atravessou mais de oito décadas de transformações profundas na sociedade brasileira e aracatiense, até seu falecimento, em 31 de julho de 2026.

Sua vida esteve especialmente vinculada a Aracati, ao Cumbe e ao patrimônio cultural do Vale do Jaguaribe.

Uma pesquisa acadêmica da Universidade Estadual do Ceará registra José Correia Calixto Lima como artista plástico, ex-diretor e ex-presidente do Museu Jaguaribano, residente na localidade do Cumbe, em Aracati. O registro também informa que ele concedeu entrevista ao pesquisador Alex da Silva Farias, na sede do Instituto do Museu Jaguaribano, em 28 de fevereiro de 2013.

Não é uma informação pequena.

Quando um pesquisador de História escolhe entrevistar alguém para compreender memória, patrimônio e a formação de uma instituição cultural, essa pessoa deixa de ser apenas testemunha de sua época.

Torna-se parte da própria fonte histórica.

José Correia foi isso:

homem de seu tempo e, simultaneamente, guardião do tempo dos outros.


II — CUMBE: O CHÃO ONDE A MEMÓRIA TAMBÉM RESPIRA 🌊

Antes de ser uma referência ligada ao Museu Jaguaribano, José Correia era um homem ligado à terra.

Ao Cumbe.

A pesquisa acadêmica que registra sua trajetória identifica expressamente sua residência naquela localidade de Aracati.

E há uma beleza simbólica nisso.

O homem que passou parte significativa da vida cuidando de documentos, fotografias, objetos, exposições e patrimônio histórico também tinha sua existência profundamente vinculada a um território marcado pela presença da natureza, do vento, da água, das dunas, do manguezal e do mar.

O Cumbe não foi apenas uma coordenada geográfica de sua biografia.

Foi pertencimento.

Foi paisagem.

Foi memória.

Foi chão.

E, na lembrança daqueles que conheceram sua relação com aquela terra, havia também o carinho especial pelas praias e pela paisagem que cercavam sua comunidade.

José Correia parecia compreender uma verdade que os grandes guardiões da memória sempre acabam descobrindo:

não existe patrimônio sem pertencimento.

Não se preserva aquilo que não se ama.

E não se ama verdadeiramente aquilo que não se aprendeu a contemplar.


III — UMA FORMAÇÃO QUE NÃO CABIA APENAS NOS BANCOS ESCOLARES

A formação de José Correia pode ser compreendida por aquilo que sua trajetória efetivamente revela.

Ele foi identificado academicamente como artista plástico e atuou durante anos em uma instituição dedicada à preservação da memória histórica e cultural de Aracati e do Vale do Jaguaribe.

Sua formação foi também construída na convivência com:

a arte;
os documentos;
as fotografias;
os livros;
os objetos históricos;
a arquitetura;
as exposições;
os pesquisadores;
os antigos moradores;
as narrativas da cidade;
e as próprias memórias do povo aracatiense.

Não era apenas conhecimento acumulado.

Era conhecimento vivido.

José Correia pertenceu àquela rara categoria de pessoas para quem aprender não significava simplesmente acumular informações.

Significava compreender o valor daquilo que não poderia ser substituído depois de perdido.


IV — O ARTISTA PLÁSTICO

A arte não foi um detalhe em sua biografia.

Foi uma de suas identidades.

A pesquisa de Alex da Silva Farias o identifica documentalmente como artista plástico, ao lado de suas funções de direção e presidência no Museu Jaguaribano.

E talvez exista uma relação profunda entre o artista e o guardião da memória.

O artista aprende a olhar.

O historiador aprende a lembrar.

O museólogo aprende a preservar.

O artista percebe aquilo que os olhos apressados deixam passar.

José Correia viveu nesse território.

Um território em que olhar era também uma forma de compreender.

Por isso, sua atuação cultural não pode ser reduzida a uma função administrativa.

Havia sensibilidade.

Havia percepção.

Havia um olhar treinado para reconhecer valor onde outros poderiam enxergar apenas antiguidade.


V — O MUSEU JAGUARIBANO: UMA PARTE DE SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

O Instituto do Museu Jaguaribano nasceu em 1968 e consolidou-se como importante instituição de preservação da memória, do patrimônio histórico e da cultura de Aracati e do Vale do Jaguaribe.

Sua trajetória está intimamente ligada à preservação do patrimônio arquitetônico aracatiense e à formação de um espaço de memória, pesquisa, educação e sociabilidade cultural. Estudos acadêmicos reconhecem o museu como importante lugar de construção das representações sobre a história e o patrimônio de Aracati.

Foi dentro desse universo que José Correia construiu uma parcela fundamental de sua vida.

E não como espectador.

Como agente.

Como trabalhador.

Como diretor.

Como presidente.

Como curador.

Como alguém que ajudou a fazer a instituição acontecer.


VI — O DIRETOR E PRESIDENTE

José Correia exerceu funções de direção no Museu Jaguaribano e chegou à presidência do Instituto.

Em entrevista publicada em 2009, aparece identificado como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano, falando sobre as dificuldades e conquistas relacionadas ao processo de restauração do sobrado-sede. (Grupo Lua Cheia)

Mais tarde, documentação institucional da Prefeitura de Aracati registra seu nome como Diretor do Museu Jaguaribano e representante da Diretoria do Museu Jaguaribano no Conselho Municipal de Políticas Culturais, no período de 2 de setembro de 2020 a 2 de setembro de 2022. (Prefeitura do Aracati)

E, em 2022, o Ministério Público do Estado do Ceará registrou a presença de José Correia entre os dirigentes do Museu Jaguaribano, durante a realização do I Seminário para a Garantia de Direitos das Pessoas Idosas de Aracati e da exposição Memórias de Permanência. (MPCE)

Sua participação institucional, portanto, não pertence apenas a um momento distante de sua trajetória.

Ela atravessou décadas.


VII — O HOMEM QUE CUIDAVA DO ARQUIVO

Talvez nenhuma função represente tão poeticamente sua personalidade quanto a de diretor do arquivo do Instituto do Museu Jaguaribano.

Em 2010, ao divulgar a tradicional exposição de fotografias e documentos antigos do Aracati, o Grupo Lua Cheia registrou José Correia como curador do salão e diretor do arquivo do IMJ. (Grupo Lua Cheia)

E aqui existe uma coincidência quase literária.

José Correia passou boa parte da vida guardando aquilo que o tempo ameaçava apagar.

Fotografias.

Jornais.

Livros.

Documentos.

Papéis antigos.

Objetos.

Memórias.

Histórias.

O arquivo era, portanto, mais que uma sala.

Era uma espécie de segunda casa da memória aracatiense.

E José Correia era um de seus guardiões.



VIII — O CURADOR DO ARACATI ANTIGO

Em 2010, o Instituto do Museu Jaguaribano realizou a XXVI Exposição de Fotografias do Aracati Antigo, acompanhada da XXV Exposição de Jornais Antigos e da XXII Exposição de Livros Raros, Papéis e Documentos Antigos.

A curadoria do salão ficou a cargo de José Correia, que exercia também a função de diretor do arquivo do Instituto, com assessoria do artista plástico Hélio Santos. (Grupo Lua Cheia)

Não é difícil imaginar a força simbólica daquela exposição.

Fotografias antigas diante dos olhos de uma cidade.

Rostos que já não estavam presentes.

Ruas que haviam mudado.

Casas que carregavam outras histórias.

Jornais que registravam um mundo desaparecido.

Documentos que sobreviveram aos seus próprios donos.

E, no centro daquele trabalho de organização e curadoria, estava José Correia.

Ele não expunha simplesmente fotografias.

Ele ajudava Aracati a olhar para si mesma.


IX — O SOBRADO, O BARÃO E A MEMÓRIA ARACATIENSE

O Museu Jaguaribano está instalado em um dos imóveis históricos mais emblemáticos de Aracati.

O sobrado que pertenceu ao Barão de Aracati integra o patrimônio arquitetônico da cidade e apresenta elementos como os tradicionais azulejos portugueses e uma arquitetura que testemunha diferentes momentos da história aracatiense. (Diário do Nordeste)

Foi justamente a preservação desse patrimônio que ocupou parte importante da atuação institucional de José Correia.

Em entrevista de 2009, ele relatou os desafios enfrentados durante o processo de restauração do sobrado, iniciado em 2 de março de 2004. Falou também das articulações realizadas pela diretoria durante os períodos de paralisação e das conquistas estruturais associadas ao projeto. (Grupo Lua Cheia)

Entre elas estavam novas estruturas para administração, reserva técnica e biblioteca, além de medidas destinadas à acessibilidade.

Mas uma das descobertas mais significativas foi outra:

as pinturas originais da casa.

Segundo José Correia, elas foram descobertas durante as obras e passaram por processo de restauração, com participação de profissionais de fora e de Aracati. O projeto também previa a formação de profissionais restauradores aracatienses. (Grupo Lua Cheia)

É difícil encontrar imagem mais adequada para definir sua trajetória:

enquanto restauravam o prédio, descobriam-se camadas de sua história.

E, enquanto se recuperavam as pinturas, também se formavam pessoas para que a cidade pudesse continuar cuidando de seu próprio patrimônio.


X — PRESERVAR NÃO ERA OLHAR PARA TRÁS

José Correia compreendia que patrimônio não é simplesmente passado.

Patrimônio é presente com memória.

Na entrevista de 2009, ao falar sobre a restauração do Museu Jaguaribano, destacou justamente a importância da capacitação de profissionais locais para a recuperação dos painéis que viessem a ser descobertos. (Grupo Lua Cheia)

Isso revela uma concepção mais ampla de preservação.

Não bastava conservar paredes.

Era necessário formar pessoas.

Não bastava guardar documentos.

Era necessário fazer com que eles continuassem falando.

Não bastava possuir um museu.

Era necessário transformá-lo em espaço de conhecimento.

José Correia entendia que o patrimônio só permanece vivo quando a comunidade consegue reconhecê-lo como parte de sua própria existência.


XI — O MUSEU COMO ESCOLA DA MEMÓRIA

Em uma pesquisa acadêmica dedicada à história do Instituto do Museu Jaguaribano, José Correia aparece como uma das fontes orais fundamentais para a compreensão da instituição e de sua relação com o patrimônio aracatiense.

Em outro trabalho acadêmico, sua fala é utilizada para apresentar o próprio funcionamento do Museu: os ciclos econômicos no térreo, a estrutura da casa colonial, o acervo de arte sacra e outros elementos que constituíam a experiência de visitação. O estudo o descreve como diretor voluntário do Museu Jaguaribano e personalidade atuante na cultura aracatiense. (SiduECE)

Essa expressão — personalidade atuante na cultura aracatiense — sintetiza muito do que os documentos revelam.

José Correia não estava simplesmente dentro da cultura.

Ele participava dela.


XII — O HOMEM QUE SE TORNOU FONTE DE HISTÓRIA

Existe uma distinção importante.

José Correia foi guardião de fontes históricas.

Mas também se tornou fonte histórica.

Em 28 de fevereiro de 2013, o pesquisador Alex da Silva Farias registrou entrevista com José Correia Calixto Lima na sede do Instituto do Museu Jaguaribano, identificando-o como artista plástico, ex-diretor e ex-presidente do Museu e morador do Cumbe.

Isso significa que sua memória pessoal passou a integrar o próprio processo de investigação sobre Aracati.

A História perguntou.

José Correia respondeu.

E suas lembranças passaram a compor o conjunto de vozes através das quais pesquisadores procuraram compreender a cidade.

O guardião tornou-se documento vivo.


XIII — A MEMÓRIA DE ARACATI PASSOU POR SUAS MÃOS

Há algo profundamente simbólico nisso.

Durante décadas, José Correia esteve diante de documentos que falavam sobre homens e mulheres que já não estavam vivos.

Diante de fotografias de pessoas que o tempo havia levado.

Diante de casas que sobreviveram aos seus moradores.

Diante de jornais que registravam acontecimentos que já haviam virado história.

Diante de objetos cujo significado dependia da capacidade humana de lembrar.

E, ao fazer isso, José Correia ajudou a construir uma ponte:

entre aqueles que viveram
e aqueles que ainda haveriam de nascer.

Essa é a essência do trabalho de preservação.

O presente recebe do passado aquilo que o passado não consegue entregar sozinho.

Alguém precisa guardar.

Alguém precisa organizar.

Alguém precisa contar.

Alguém precisa dizer:

“Isto aconteceu.
Estas pessoas existiram.
Esta cidade foi assim.
Não deixem desaparecer.”


XIV — O HOMEM DO CUMBE E O HOMEM DO MUSEU

Talvez a beleza maior de sua trajetória esteja justamente na coexistência dessas duas dimensões.

De um lado:

José Correia do Museu.

O artista.

O diretor.

O presidente.

O curador.

O homem dos arquivos.

O homem dos documentos.

O homem das exposições.

De outro:

José Correia do Cumbe.

O homem ligado à sua comunidade.

À paisagem.

À praia.

Ao vento.

À natureza.

Ao lugar que amava.

E essas duas dimensões não se contradiziam.

Elas se completavam.

Porque quem entende o valor da memória de uma cidade também pode compreender o valor da memória de uma comunidade.

Quem aprende a preservar uma fotografia também aprende a respeitar uma paisagem.

Quem entende o valor de uma casa antiga pode compreender o valor de uma terra que guarda histórias.


XV — O PROFISSIONAL DE MUITOS TALENTOS

Os registros documentais permitem identificar José Correia como artista plástico, diretor, presidente, curador e responsável pelo arquivo do Museu Jaguaribano, além de interlocutor de pesquisas acadêmicas e participante ativo de ações culturais.

Essa multiplicidade revela uma característica importante de sua personalidade profissional.

Ele não cabia em uma única função.

Seu trabalho exigia:

sensibilidade artística;
conhecimento histórico;
organização;
responsabilidade institucional;
capacidade de diálogo;
visão patrimonial;
memória;
e compromisso com a cultura.

A trajetória de José Correia demonstra que a preservação cultural não é feita somente por especialistas isolados em suas áreas.

É feita por pessoas capazes de transitar entre elas.

Arte, história, arquivo, patrimônio, educação e comunidade.

José Correia transitou por esses territórios.


XVI — A DIMENSÃO HUMANA: O QUE OS DOCUMENTOS NÃO CONSEGUEM MEDIR

É aqui que a biografia deixa de ser somente documental.

Porque existem características que nenhum arquivo consegue registrar adequadamente.

Nenhum currículo mede a gentileza.

Nenhuma ata registra o calor de uma conversa.

Nenhuma fotografia captura completamente a delicadeza de um olhar.

Nenhum diploma comprova a grandeza de um coração.

E, na minha percepção pessoal, José Correia era um homem excepcional.

Um homem de coração enorme.

Simples.

Educado.

Atencioso.

Gentil.

Um homem que possuía muitos conhecimentos, mas não parecia precisar fazer do conhecimento uma arma de distância.

Ao contrário.

Seu saber aproximava.

Seu conhecimento não parecia querer ocupar o espaço do outro.

Parecia querer compartilhá-lo.

Havia nele uma qualidade que, nos tempos atuais, se tornou quase uma raridade:

a capacidade de prestar atenção.

Olhar.

Ouvir.

Receber.

Conversar.

Tratar bem.

Respeitar.

E fazer tudo isso sem transformar gentileza em espetáculo.


XVII — O HOMEM QUE TRANSMITIA CARINHO

Talvez seja esta a parte mais difícil de escrever.

Porque os documentos podem contar o que José Correia fez.

Mas somente a memória afetiva pode tentar traduzir como era estar diante dele.

E a lembrança que permanece é a de um homem que transbordava carinho.

Não um carinho teatral.

Não uma cordialidade automática.

Mas uma maneira de estar diante das pessoas.

A atenção que oferecia.

A educação com que tratava.

A delicadeza.

A simplicidade.

A gentileza.

Tudo isso compunha uma personalidade que, para quem teve o privilégio de conhecê-lo, ultrapassava qualquer cargo que tenha ocupado.

Ele podia ser diretor.

Podia ser artista.

Podia ser presidente.

Podia ser guardião de arquivo.

Mas, antes de qualquer coisa,

era gente.

E talvez seja justamente essa a sua maior grandeza.


XVIII — CONHECIMENTO SEM SOBERBA

Há homens que sabem muito.

E fazem questão de que todos percebam.

Há homens que sabem pouco.

E fazem questão de parecer saber muito.

E há homens raros:

os que sabem muito e continuam simples.

É assim que José Correia permanece na memória afetiva de quem o admirou.

Seu conhecimento era vasto.

Seu repertório era múltiplo.

Sua experiência cultural era significativa.

Mas sua simplicidade fazia com que tudo isso parecesse menos uma distância e mais uma ponte.

Ele não precisava parecer importante.

Sua trajetória já falava por ele.


XIX — O LEGADO PROFISSIONAL

O legado profissional de José Correia Calixto Lima pode ser percebido em diferentes camadas.

1. Na preservação do patrimônio

Sua atuação esteve ligada a uma instituição que assumiu papel fundamental na defesa do patrimônio cultural de Aracati e do Vale do Jaguaribe. (Grupo Lua Cheia)

2. Na memória documental

Como diretor do arquivo, esteve diretamente relacionado à preservação e organização de documentos, fotografias, jornais e livros raros. (Grupo Lua Cheia)

3. Na curadoria

Participou da organização de exposições dedicadas à memória do Aracati antigo. (Diário do Nordeste)

4. Na gestão cultural

Exerceu funções de direção e presidência do Museu Jaguaribano, além de aparecer posteriormente em registros institucionais como diretor do equipamento cultural. (Grupo Lua Cheia)

5. Na produção de conhecimento

Sua experiência foi utilizada como fonte oral em pesquisas acadêmicas sobre memória, patrimônio e história de Aracati.

6. Na formação cultural da cidade

Sua trajetória esteve ligada a um espaço que articulava preservação, pesquisa, exposições, visitação e educação patrimonial. (Grupo Lua Cheia)


XX — O LEGADO HUMANO

Mas nenhum inventário profissional será suficiente.

Porque o legado de José Correia também está nas pessoas.

Naqueles que conversaram com ele.

Naqueles que aprenderam alguma coisa em sua presença.

Naqueles que receberam sua atenção.

Naqueles que conheceram sua gentileza.

Naqueles que ouviram suas histórias.

Naqueles que perceberam que alguém pode carregar enorme quantidade de conhecimento e, ainda assim, continuar sendo simples.

Esse legado não está arquivado.

Está espalhado.

Está na memória de cada pessoa que recebeu um pouco de sua presença.


XXI — JOSÉ CORREIA E A CIDADE QUE ELE AJUDOU A LEMBRAR

Aracati é uma cidade que carrega séculos de história.

Mas nenhuma cidade preserva sua memória apenas porque possui prédios antigos.

É preciso que existam pessoas dispostas a cuidar.

José Correia foi uma dessas pessoas.

E talvez seja por isso que sua trajetória tenha uma dimensão maior que a própria biografia.

Ele não apenas viveu em Aracati.

Ajudou Aracati a lembrar de si mesma.

Não apenas trabalhou no Museu Jaguaribano.

Ajudou a manter acesa uma das casas da memória aracatiense.

Não apenas viveu no Cumbe.

Carregou consigo o pertencimento a uma comunidade que também fazia parte de sua história.

Não apenas foi artista.

Aprendeu a olhar.

Não apenas conheceu história.

Ajudou a preservá-la.



XXII — O GUARDIÃO DAS COISAS QUE O TEMPO NÃO PODE LEVAR

E então chegamos ao centro de tudo.

Ao título desta homenagem.

O Guardião das Coisas que o Tempo Não Pode Levar.

Porque o tempo pode levar uma pessoa.

Pode fechar uma porta.

Pode envelhecer uma fotografia.

Pode desgastar uma parede.

Pode apagar uma inscrição.

Pode transformar uma casa em ruína.

Pode fazer uma geração desaparecer.

Mas há coisas que o tempo não consegue levar completamente.

A arte.

O conhecimento compartilhado.

A gentileza.

A memória.

O exemplo.

O carinho.

A marca deixada na vida de alguém.

José Correia passou a vida trabalhando justamente nesse território.

Entre aquilo que desaparece

e aquilo que precisa permanecer.

Por isso, talvez o destino tenha construído uma espécie de círculo perfeito:

o homem que dedicou a vida a preservar a memória tornou-se, ele próprio, memória.


XXIII — 31 DE JULHO DE 2026

Na sexta-feira, 31 de julho de 2026, José Correia Calixto Lima encerrou sua caminhada terrena.

Mas uma vida como a dele não termina simplesmente numa data.

Porque existem pessoas cuja partida produz silêncio.

E existem pessoas cuja partida produz memória.

José Correia pertence à segunda espécie.

Sua ausência será sentida.

Mas sua presença continuará inscrita:

no Museu Jaguaribano;

na história cultural de Aracati;

nos documentos e pesquisas que registraram sua voz;

nas exposições que ajudou a organizar;

no patrimônio que ajudou a preservar;

no Cumbe que amava;

nas praias que contemplava;

e, principalmente, na memória daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo.


Seu último trabalho e o momento da criação. Depois de exposto ele presenteou a sua grande amiga Tereza Pinheiro com esta obra.

XXIV — EPÍLOGO: O HOMEM QUE FICOU

Há homens que deixam monumentos.

Há homens que deixam livros.

Há homens que deixam cargos.

Há homens que deixam fotografias.

José Correia deixou tudo isso em alguma medida.

Mas deixou algo maior:

deixou afeto.

E o afeto é uma das formas mais resistentes de memória.

Porque um documento pode registrar que José Correia foi diretor.

Uma pesquisa pode registrar que foi artista plástico.

Uma ata pode registrar que foi dirigente.

Uma reportagem pode registrar sua atuação.

Uma fotografia pode guardar seu rosto.

Mas somente o coração de quem o conheceu consegue guardar aquilo que nenhum arquivo consegue catalogar:

a maneira como ele fazia alguém se sentir.

E é aí que José Correia permanece.

Não somente no Museu.

Não somente no Cumbe.

Não somente na História.

Permanece nas pessoas.

Permanece na lembrança.

Permanece na gentileza que ensinou sem precisar ensinar.

Permanece no carinho que ofereceu sem pedir nada em troca.

Permanece no conhecimento que compartilhou.

Permanece na cidade que ajudou a preservar.

Permanece nas histórias que ainda serão contadas.

Porque o tempo pode fechar os olhos de um homem.

Mas não consegue fechar os olhos daquilo que ele ensinou os outros a enxergar.

José Correia Calixto Lima viveu entre a arte e a memória.

Entre o Cumbe e o Museu.

Entre o mar e os arquivos.

Entre o passado e o presente.

Entre a simplicidade de um homem e a grandeza de sua obra.

E, talvez por isso, sua vida possa ser resumida não pelo que terminou em 31 de julho de 2026, mas por tudo aquilo que continuará depois dessa data.

Ele guardou a memória de Aracati.

E agora Aracati guarda a memória dele.


JOSÉ CORREIA CALIXTO LIMA

21/10/1945 — 31/07/2026

Artista plástico • Gestor cultural • Diretor • Presidente • Curador • Guardião do Arquivo • Homem do Cumbe • Memória viva de Aracati

“Há homens que passam pela História.
E há homens que impedem a História de passar.”

Carlos Henrique Musashi — CHM ✍️


REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS

Fontes acadêmicas — revisão por pares

FARIAS, Alex da Silva. A representação do patrimônio na memória dos sujeitos sociais. Bilros: História(s), Sociedade(s) e Cultura(s), Fortaleza, v. 3, n. 4, p. 12-39, jan./jul. 2015. Disponível em: Revista Bilros — UECE. Acesso em: 04 ago. 2026. Revisão por pares.

FARIAS, Alex da Silva. Memória e patrimônio na construção histórica do Instituto do Museu Jaguaribano. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2015. Disponível em: Repositório da UECE — pesquisa de Alex Farias. Acesso em: 04 ago. 2026. Pesquisa acadêmica.

XAVIER, Antônio Roberto; LIMA, José Ribamar; XAVIER, Lisimére Cordeiro do Vale. O Instituto Museu Jaguaribano em Aracati-CE: história, memória e educação. Museologia & Interdisciplinaridade, Brasília, v. 6, n. 11, 2017. Revisão por pares.

DANTAS, Simone Maria Silva. Memórias e histórias de quilombos no Ceará. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2009. Tese (Doutorado). Pesquisa acadêmica.


Fontes oficiais

ARACATI (Município). Prefeitura Municipal. Conselho Municipal de Políticas Culturais. Aracati: Prefeitura Municipal, [2026]. Disponível em: Prefeitura de Aracati — Conselho Municipal de Políticas Culturais. Acesso em: 04 ago. 2026. Fonte Oficial. (Prefeitura do Aracati)

BRASIL. Ministério Público do Estado do Ceará. MPCE realiza I Seminário para a Garantia de Direitos das Pessoas Idosas de Aracati. Fortaleza: MPCE, 8 dez. 2022. Disponível em: MPCE — Seminário para a Garantia de Direitos das Pessoas Idosas de Aracati. Acesso em: 04 ago. 2026. Fonte Oficial. (MPCE)

CEARÁ. Secretaria da Cultura. Sobrado do Barão de Aracati. Fortaleza: SECULT, [s.d.]. Fonte Oficial.


Fontes institucionais, culturais e jornalísticas

PONCIANO, Marciano. Museu Jaguaribano: um amor antigo. Grupo Lua Cheia, Aracati, 30 jan. 2009. Disponível em: Grupo Lua Cheia — Museu Jaguaribano: um amor antigo. Acesso em: 04 ago. 2026. (Grupo Lua Cheia)

GRUPO LUA CHEIA. XXVI Exposição de Fotografias do Aracati Antigo. Grupo Lua Cheia, Aracati, 20 jun. 2010. Disponível em: Grupo Lua Cheia — XXVI Exposição de Fotografias do Aracati Antigo. Acesso em: 04 ago. 2026. (Grupo Lua Cheia)

DIÁRIO DO NORDESTE. Exposições de fotos antigas retratam história de Aracati. Diário do Nordeste, Fortaleza, 24 jul. 2010. Disponível em: Diário do Nordeste — Exposições de fotos antigas retratam história de Aracati. Acesso em: 04 ago. 2026. (Diário do Nordeste)

DIÁRIO DO NORDESTE. Memória do museu restituída. Diário do Nordeste, Fortaleza, 29 nov. 2009. Disponível em: Diário do Nordeste — Memória do museu restituída. Acesso em: 04 ago. 2026. (Diário do Nordeste)



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