📷 Entre a Kodak e o Porteiro
📷 Entre a Kodak e o Porteiro
A máquina pode aprender quase tudo. A questão é o que não podemos desaprender.
Há uma pergunta que acompanha praticamente todas as grandes transformações tecnológicas: o que acontecerá com o homem quando a máquina puder fazer aquilo que ele faz? Ela esteve presente diante do tear mecânico, da máquina a vapor, das linhas de montagem, dos computadores e da internet. Agora retor
na com intensidade incomparavelmente maior diante da inteligência artificial, talvez porque, desta vez, a máquina não esteja disputando conosco apenas força, velocidade ou capacidade de cálculo. Ela entrou em um território que, durante muito tempo, consideramos exclusivamente nosso: escreve, conversa, traduz, programa, desenha, analisa documentos, reconhece padrões, produz imagens, compõe músicas e executa, em minutos, tarefas intelectuais que até pouco tempo atrás consumiam horas ou dias de trabalho humano.
É natural que isso provoque inquietação. O problema começa quando transformamos o medo em argumento, ou o entusiasmo em certeza. Entre aqueles que anunciam o desaparecimento do trabalho humano e aqueles que tratam a inteligência artificial como mais uma moda passageira, talvez exista um caminho menos ruidoso e mais interessante. Para encontrá-lo, proponho aproximar três histórias que, à primeira vista, pouco têm em comum: a história de uma empresa que ajudou a inventar o futuro e quase foi derrotada por ele; a parábola de uma fábrica que descobriu que uma máquina podia fazer o trabalho de dezenas de pessoas; e a história de um porteiro cuja função parecia tão simples que alguém imaginou poder substituí-lo por uma porta automática.
É nesse espaço, entre a Kodak, a máquina da fábrica e o porteiro do hotel, que talvez esteja uma das melhores maneiras de compreender a revolução que a inteligência artificial está provocando.
🎞️ A Kodak conheceu o futuro
Poucas empresas conseguiram associar seu nome tão profundamente a um hábito humano quanto a Kodak conseguiu com a fotografia. Durante décadas, fotografar significava comprar filmes, escolher cuidadosamente cada registro, terminar o rolo, levá-lo para revelação e esperar. Havia algo quase cerimonial nisso. Fotografávamos sem saber exatamente se a fotografia havia ficado boa. O instante era capturado primeiro; sua confirmação vinha depois.
Então chegou a fotografia digital. E aqui começa uma das ironias empresariais mais interessantes da história contemporânea, porque a Kodak não foi simplesmente uma empresa surpreendida por uma tecnologia que desconhecia. Em 1975, o engenheiro Steven Sasson, trabalhando na própria companhia, construiu aquela que é reconhecida como a primeira câmera fotográfica digital autônoma. Era rudimentar quando comparada a qualquer telefone celular atual, mas continha algo muito maior do que sua aparência poderia sugerir: continha uma antecipação do mundo que viria.
A Kodak, portanto, não deixou de enxergar o futuro. Ela ajudou a inventá-lo.
É justamente isso que torna sua história tão valiosa. Reduzi-la à frase fácil de que “a Kodak não quis inovar e faliu” empobrece o caso. A empresa investiu em tecnologias digitais e tentou adaptar seus negócios, mas permaneceu profundamente dependente de um modelo econômico construído em torno do filme fotográfico. Quando a fotografia digital transformou não apenas o produto, mas toda a lógica de produção, armazenamento e compartilhamento das imagens, adaptar-se tornou-se muito mais difícil do que simplesmente possuir a tecnologia. Em janeiro de 2012, a Eastman Kodak entrou com pedido de proteção judicial sob o Chapter 11 nos Estados Unidos. Mais tarde reorganizou-se e continuou existindo, mas a companhia que durante gerações parecera quase inseparável da própria ideia de fotografia havia perdido aquela posição.
Há uma lição desconfortável nisso: conhecer uma transformação não significa estar preparado para ela. Uma organização pode enxergar o futuro, investir nele e, ainda assim, continuar emocional, estrutural ou economicamente presa ao mundo que lhe proporcionou sucesso. O mesmo vale para pessoas. Podemos reconhecer que determinada tecnologia chegou e continuar trabalhando como se ela não existisse. Podemos até conhecer suas possibilidades e recusá-las porque ameaçam procedimentos nos quais construímos nossa segurança profissional.
É por isso que penso na Kodak quando ouço alguém declarar, com certo orgulho, que não pretende utilizar inteligência artificial porque prefere fazer as coisas “como sempre fez”. Não porque toda tecnologia deva ser adotada sem crítica, muito menos porque tudo aquilo que recebe o rótulo de inovação seja necessariamente bom. A inteligência artificial apresenta problemas reais de confiabilidade, vieses, propriedade intelectual, privacidade, segurança e responsabilidade. Precisa ser compreendida, criticada e, quando necessário, limitada. Mas existe uma diferença profunda entre criticar uma tecnologia depois de conhecê-la e recusá-la para não precisar conhecê-la.
O futuro possui uma característica pouco diplomática: ele não exige nossa autorização para chegar. Podemos discutir como queremos recebê-lo; não podemos simplesmente decretar que permaneça do lado de fora.
🏭 Uma fábrica, cem trabalhadores e uma máquina
A segunda história precisa ser apresentada com uma ressalva. Circulam há anos diferentes narrativas empresariais envolvendo fábricas de pasta de dentes, algumas delas tratadas como acontecimentos reais sem documentação suficiente. Não me interessa repetir uma lenda como se fosse história. Por isso, prefiro assumir deliberadamente a liberdade do ensaísta e transformá-la em parábola.
Imaginemos uma fábrica de pasta de dentes na qual cem trabalhadores executem determinada etapa da produção. Todos os dias eles chegam, vestem seus uniformes, ocupam seus postos e realizam tarefas que aprenderam a executar com eficiência. Alguns talvez estejam ali há vinte anos e tenham construído sua identidade profissional em torno daquele trabalho. Até que, determinado dia, chega uma máquina capaz de executar, em menos de uma hora, aquilo que aquelas cem pessoas demoravam um turno inteiro para fazer.
Depois dos testes, a administração faz aquilo que administrações costumam fazer: calcula. O resultado é economicamente irresistível e humanamente brutal. A empresa não precisa mais dos cem trabalhadores. Precisa da máquina e de alguém que saiba operá-la. Noventa e nove são dispensados. Um permanece, justamente aquele que aprendeu a trabalhar com a nova tecnologia.
A parábola é incômoda porque existe nela uma verdade que não deveríamos esconder atrás de discursos entusiasmados sobre inovação: tecnologia elimina tarefas e pode eliminar postos de trabalho. Todas as grandes revoluções produtivas produziram ganhos extraordinários de eficiência, mas também deixaram profissões pelo caminho, destruíram competências que antes possuíam valor econômico e obrigaram pessoas a descobrir que aquilo que haviam passado décadas aprendendo já não era tão necessário quanto antes.
Não há motivo sério para imaginar que a inteligência artificial será diferente. O que precisamos evitar é o salto simplista entre reconhecer esse fenômeno e concluir que profissões inteiras desaparecerão exatamente como hoje as conhecemos. A Organização Internacional do Trabalho vem chamando atenção justamente para essa distinção. Em sua atualização de 2025 sobre inteligência artificial generativa e empregos, a OIT estimou que aproximadamente um em cada quatro trabalhadores no mundo se encontra em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Ao mesmo tempo, ressaltou que, em razão da composição das profissões por diferentes tarefas e da permanência da necessidade de intervenção humana, a transformação dos empregos tende a ser mais provável do que sua automação integral.
Essa diferença é fundamental porque uma profissão não se confunde com uma de suas tarefas. Um advogado não é simplesmente alguém que redige petições; um professor não é apenas alguém que transmite informações; um médico não se reduz à comparação de sintomas; um contador não existe apenas para organizar números; um jornalista não é somente alguém que escreve notícias. E um escritor, permitam-me defender a própria casa, certamente não pode ser reduzido à combinação gramaticalmente correta de palavras.
Isso não significa que esses profissionais estejam protegidos da transformação. Significa exatamente o contrário: suas profissões poderão permanecer justamente porque serão transformadas. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão automatizadas, outras passarão a ser executadas em parceria com sistemas inteligentes e novas responsabilidades surgirão. Por isso, talvez a pergunta profissional mais importante dos próximos anos não seja “a inteligência artificial substituirá minha profissão?”, mas outra, bem menos confortável: que parte daquilo que faço pode ser automatizada e o que pretendo fazer quando isso acontecer?
O trabalhador que permaneceu na nossa fábrica imaginária não venceu a máquina. Também não tentou provar que era capaz de fazer manualmente aquilo que ela realizava milhares de vezes mais depressa. Ele fez algo mais inteligente: aprendeu a operá-la.
Talvez uma parte importante da disputa profissional dos próximos anos nem sequer aconteça entre seres humanos e máquinas. Ela acontecerá entre seres humanos que aprenderam a utilizar as novas ferramentas e aqueles que decidiram ignorá-las. O advogado que compreende como utilizar inteligência artificial com responsabilidade poderá trabalhar de maneira diferente daquele que se recusa a conhecê-la. O professor que aprende a incorporá-la criticamente ao ensino terá possibilidades que não estavam disponíveis ao professor que simplesmente proíbe seus alunos de mencioná-la. O profissional que delega à máquina tarefas repetitivas poderá empregar seu tempo em atividades de maior valor intelectual, enquanto outro continuará gastando horas para demonstrar que consegue fazer sozinho aquilo que uma ferramenta executa em minutos.
Mas existe um perigo nessa conclusão. Se encerrássemos o raciocínio aqui, teríamos apenas substituído o trabalhador tradicional pelo operador eficiente de máquinas. E o ser humano vale mais do que sua capacidade de permanecer economicamente útil diante de uma nova tecnologia.
É por isso que precisamos chegar ao hotel.
🚪 O porteiro que não apenas abria portas
O publicitário britânico Rory Sutherland popularizou uma ideia particularmente útil para compreender os limites de determinadas concepções de eficiência: a Doorman Fallacy, ou Falácia do Porteiro. O raciocínio começa de maneira aparentemente impecável. Imagine um hotel elegante que mantém um porteiro na entrada. Ele permanece ali durante horas e uma de suas atividades mais visíveis consiste em abrir a porta quando hóspedes chegam ou saem.
Alguém interessado em reduzir custos observa a cena e transforma o problema em uma equação. O porteiro recebe salário, possui encargos trabalhistas, tira férias, precisa ser treinado, pode adoecer e eventualmente faltar. Sua função é abrir a porta. Uma porta automática também abre a porta, custa menos no longo prazo e não possui nenhuma dessas inconveniências. A conclusão parece óbvia: instala-se a porta automática e elimina-se o porteiro.
A porta funciona perfeitamente. Sempre que alguém se aproxima, ela abre.
O problema é que o porteiro nunca apenas abriu portas.
Ele ajudava a senhora idosa a sair do carro, percebia o hóspede carregando malas, chamava um táxi, reconhecia clientes habituais, observava movimentos estranhos na entrada, orientava quem chegava perdido e antecipava necessidades que dificilmente apareceriam na descrição formal de seu cargo. Havia ainda algo menos mensurável: ele cumprimentava, reconhecia e fazia alguém sentir que sua chegada havia sido percebida.
A máquina substituiu perfeitamente aquilo que acreditávamos ser a função do porteiro. O erro não estava na máquina; estava na definição que havíamos feito do homem.
Reduzimos uma pessoa à tarefa mais facilmente observável e, depois, concluímos que uma tecnologia capaz de executar aquela tarefa seria capaz de substituir tudo aquilo que a pessoa representava. Essa é a Falácia do Porteiro e talvez nunca tenha sido tão pertinente quanto agora, quando começamos a cometer exatamente o mesmo erro com profissões inteiras.
Uma inteligência artificial redige contratos; logo, substituirá o advogado. Produz planos de aula; logo, substituirá o professor. Analisa exames; logo, substituirá o médico. Escreve textos; logo, substituirá jornalistas e escritores. A conclusão parece coerente enquanto consideramos apenas a porta. O problema aparece quando perguntamos quanto valor existia ao redor daquela tarefa e quantas atividades humanas estavam sendo realizadas sem que tivéssemos aprendido a contabilizá-las.
📊 O que não cabe na planilha
É curioso que a ascensão da inteligência artificial esteja acontecendo ao mesmo tempo em que redescobrimos o valor de competências que durante algum tempo foram tratadas como secundárias. Relatórios recentes sobre trabalho e qualificação profissional colocam lado a lado conhecimentos tecnológicos e capacidades como pensamento analítico, criatividade, resiliência, liderança, colaboração e competências socioemocionais. Não existe necessariamente contradição nisso. Quanto mais eficientes as máquinas se tornam na execução de determinadas tarefas, maior tende a ser o valor das capacidades que permanecem difíceis de reduzir a procedimentos automáticos.
A discussão sobre inteligência artificial, portanto, não pode ser apenas tecnológica. Ela é inevitavelmente humana. Precisamos decidir que trabalhos desejamos preservar, quais decisões não queremos delegar e quanto valor atribuímos à conversa, ao cuidado, à confiança, à capacidade de perceber uma necessidade antes que ela seja verbalizada e à disposição de assumir responsabilidade por uma decisão. São perguntas incômodas justamente porque suas respostas raramente cabem numa planilha. O mundo contemporâneo, entretanto, desenvolveu um fascínio compreensível por aquilo que consegue medir: tempo, custo, produção, cliques, conversões e produtividade. Talvez o porteiro tenha sido dispensado justamente porque sua maior contribuição não cabia numa célula do Excel.
Isso não significa romantizar qualquer atividade humana simplesmente porque é humana. Existem tarefas tediosas, repetitivas, perigosas e intelectualmente pobres que deveriam mesmo ser automatizadas. Pouca dignidade existe em obrigar uma pessoa a desperdiçar horas realizando manualmente uma operação que uma máquina pode executar com segurança em segundos. A tecnologia também liberta. O ganho de produtividade pode devolver ao ser humano aquilo que talvez seja seu recurso mais escasso: tempo.
A questão é o que faremos com esse tempo.
Se um advogado consegue analisar em vinte minutos documentos que antes exigiam quatro horas, as três horas e quarenta minutos economizadas poderão servir para compreender melhor a estratégia do caso, conversar com o cliente, verificar criticamente os resultados ou simplesmente assumir mais processos. A tecnologia não determina qual dessas escolhas será feita. Ela apenas cria a possibilidade.
É nesse ponto que a conversa sobre eficiência precisa encontrar a conversa sobre propósito.
🛠️ Não usar uma ferramenta também não é virtude
Existe uma tentação recorrente diante de novas tecnologias: transformar a recusa em demonstração de superioridade intelectual. Aconteceu com calculadoras, computadores, internet e mecanismos de busca. A crítica costuma assumir a forma de defesa de alguma capacidade humana supostamente ameaçada. A calculadora destruiria nossa capacidade de calcular; a internet destruiria nossa memória; os mecanismos de busca acabariam com a pesquisa; os computadores tornariam determinadas profissões intelectualmente preguiçosas.
Essas previsões nunca foram inteiramente absurdas. Tecnologias realmente modificam nossas capacidades porque alteram aquilo que precisamos memorizar, executar e aprender. A existência de uma ferramenta pode produzir dependência, e a facilidade pode enfraquecer determinadas habilidades quando deixamos de exercitá-las. Mas ninguém consideraria hoje um engenheiro intelectualmente superior porque se recusasse a utilizar uma calculadora. A competência não está em realizar tudo da maneira mais difícil possível, mas em compreender suficientemente o problema para saber utilizar, conferir e eventualmente contestar as ferramentas disponíveis.
Talvez daqui a alguns anos pareça igualmente curioso ouvir profissionais declararem com orgulho que não utilizam inteligência artificial. Não usar uma ferramenta não é, por si só, virtude; utilizá-la também não é. O valor está no discernimento de quem a emprega.
Uma pessoa medíocre equipada com uma tecnologia extraordinária pode simplesmente produzir mediocridade em escala e velocidade extraordinárias. Um profissional irresponsável continua irresponsável quando utiliza inteligência artificial; talvez se torne apenas mais eficiente em sua irresponsabilidade. E isso é particularmente importante porque sistemas de IA podem produzir respostas convincentes mesmo quando estão errados, reproduzir vieses presentes nos dados, apresentar informações falsas com aparência de segurança e sugerir conclusões sem compreender suas consequências humanas.
O profissional necessário neste novo ambiente, portanto, não será apenas aquele que sabe pedir alguma coisa a uma inteligência artificial. Será aquele que compreende quando utilizá-la, como verificar aquilo que recebeu e, sobretudo, quando contrariá-la. A verdadeira competência não estará no ato mecânico de apertar o botão, mas no julgamento que antecede e sucede esse ato.
⚖️ Entre o medo e a idolatria
Há dois exageros que me parecem igualmente perigosos. De um lado estão aqueles que demonizam a inteligência artificial, como se toda utilização da tecnologia representasse necessariamente empobrecimento intelectual ou ameaça à humanidade. Do outro estão aqueles que parecem esperar dela uma espécie de redenção tecnológica, como se eficiência algorítmica pudesse resolver problemas que, muitas vezes, são morais, políticos, sociais ou simplesmente humanos.
Uns romantizam o passado; outros idolatram o futuro. Ambos acabam atribuindo à tecnologia um poder maior do que ela merece.
Não precisamos escolher entre humanidade e tecnologia. Essa é uma falsa dicotomia. Precisamos decidir que humanidade queremos levar conosco enquanto construímos e utilizamos tecnologia.
A pergunta se torna ainda mais importante porque estamos ensinando máquinas a realizar atividades cada vez mais próximas daquelas que utilizamos para definir nossa própria inteligência. Elas escrevem, falam, reconhecem imagens, imitam vozes, identificam padrões, produzem argumentos e simulam conversações cada vez mais naturais. Diante disso, é compreensível perguntar até onde serão capazes de aprender. Mas talvez exista outra pergunta, menos tecnológica e mais urgente: enquanto as máquinas aprendem, o que nós começaremos a desaprender?
Se uma máquina escreve por mim, continuarei sabendo escrever? Se ela oferece imediatamente possibilidades de raciocínio, continuarei exercitando pensamento crítico? Se recomenda caminhos, continuarei sabendo escolher? Se responde instantaneamente a praticamente qualquer pergunta, continuarei tendo paciência para formular perguntas realmente boas? Se produz em segundos, continuarei compreendendo o valor de determinados processos que exigem tempo? E, se nossas relações forem progressivamente intermediadas por sistemas automatizados, continuaremos sabendo receber alguém como aquele porteiro recebia?
O desafio, portanto, talvez não seja impedir que as máquinas aprendam. É impedir que nós desaprendamos.
🧭 Entre a Kodak e o porteiro
Chegamos, assim, às duas extremidades de uma mesma reflexão. De um lado está a Kodak, lembrando-nos que resistir à transformação não interrompe a transformação. O mundo muda mesmo quando não estamos preparados, e nenhuma carreira, empresa ou instituição deveria confundir tradição com imunidade ao futuro. Do outro lado está o porteiro, lembrando-nos que nem tudo aquilo que pode ser automatizado deve ser avaliado apenas pela economia imediata produzida pela automação. Entre ambos está o trabalhador imaginário da fábrica, aquele que percebeu que não faria sentido competir com a máquina naquilo que ela executava melhor e decidiu aprender a operá-la.
Esses três personagens oferecem uma espécie de bússola para o nosso tempo. A Kodak ensina a não desprezar a mudança. O trabalhador da fábrica ensina a aprender a ferramenta. O porteiro ensina a não confundir a ferramenta com a totalidade do valor humano.
Talvez seja essa a posição mais sensata diante da inteligência artificial: nem recusá-la, nem adorá-la. Conhecê-la suficientemente para utilizá-la, questioná-la, verificar seus resultados e estabelecer seus limites. Automatizar aquilo que merece ser automatizado e proteger aquilo cuja perda nos tornaria apenas mais eficientes, mas não necessariamente melhores.
Não precisamos competir com uma inteligência artificial para descobrir quem escreve mais depressa; ela provavelmente vencerá. Não precisamos disputar quem consegue analisar mais documentos simultaneamente, armazenar mais informações ou cruzar mais dados. Essa competição nasceu desigual e ficará cada vez mais desigual. Nossa vantagem — se ainda fizer sentido utilizar essa palavra — talvez esteja em outro lugar: saber o que perguntar, compreender por que perguntamos, reconhecer quando uma resposta tecnicamente impecável conduz a uma decisão humanamente absurda e perceber a pessoa que existe por trás do processo, do prontuário, da planilha, do contrato, da matrícula ou da estatística.
Precisamos, em outras palavras, continuar capazes de fazer aquilo que o porteiro fazia enquanto alguém pensava que ele apenas abria portas: perceber o outro.
Por isso, talvez a pergunta que acompanha todas as revoluções tecnológicas precise ser reformulada. Em vez de perguntarmos apenas o que será do homem quando a máquina puder fazer aquilo que ele faz, deveríamos perguntar o que o homem poderá fazer melhor justamente porque a máquina passou a fazer tantas outras coisas por ele.
A resposta dependerá menos da inteligência da máquina do que da nossa capacidade de decidir o que fazer com ela.
A Kodak nos ensinou o preço de não acompanhar suficientemente uma transformação. O trabalhador da fábrica nos lembra da necessidade de aprender as novas ferramentas. E o porteiro nos recorda por que ainda vale a pena permanecer humano.
Entre a Kodak e o porteiro existe uma máquina. Diante dela, existe uma escolha. Podemos recusá-la ou podemos idolatrá-la. Há, porém, uma terceira possibilidade, mais difícil e talvez mais inteligente: aprender a usá-la sem permitir que ela nos faça desaprender quem somos.
Carlos Henrique Musashi da Costa Ribeiro
Março de 2026
📚 Referências
EASTMAN KODAK COMPANY. Milestones. Kodak. Disponível em: Kodak — Milestones. Acesso em: 02 set. 2026. Fonte oficial.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Generative AI and jobs: a 2025 update. Geneva: ILO, 2025. Disponível em: Organização Internacional do Trabalho — estudo sobre IA generativa e empregos. Acesso em: 02 set. 2026. Fonte oficial.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Changing landscape of skills in the age of AI. Geneva: ILO, 2026. Disponível em: Organização Internacional do Trabalho — competências na era da IA. Acesso em: 02 set. 2026. Fonte oficial.
SUTHERLAND, Rory. Alchemy: The Dark Art and Curious Science of Creating Magic in Brands, Business, and Life. New York: William Morrow, 2019.
WORLD ECONOMIC FORUM. Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025. Disponível em: World Economic Forum — Future of Jobs Report 2025. Acesso em: 02 set. 2026.
