O dia em que prenderam o Diabo — e descobriram que esse talvez não fosse o verdadeiro problema


E se conseguíssemos prender o Diabo... e o mal continuasse acontecendo?

Talvez uma das ideias mais confortáveis inventadas pela humanidade seja a existência de alguém em quem possamos colocar a culpa.

O Diabo cumpriu muito bem esse papel.

Durante séculos, seu nome esteve associado à tentação, ao pecado, à mentira, à violência, à traição e a quase tudo aquilo que preferimos acreditar que não nasceu inteiramente de nós.

Mas existe uma pergunta desconfortável que raramente fazemos:

o que aconteceria se, de repente, ele não pudesse mais interferir em absolutamente nada?

Essa é a provocação que está no centro de O Dia que Prenderam o Diabo, meu novo romance.

E tudo começa de uma maneira bastante improvável.

Não existe um ritual secreto. Não há exorcistas preparando uma armadilha. Ninguém está tentando abrir as portas do inferno.

Existe apenas ciência.

Uma máquina.
Um laboratório.
Um experimento.
E uma anomalia que não deveria existir.

Até que alguém aparece.

Ele parece humano. Fala como um homem. Tem memória, inteligência, ironia e uma desconcertante predileção por advogados.

Diz ter muitos nomes.

Um deles atravessou séculos:

Diabo.


😈 O problema começa depois que conseguimos prendê-lo

Imagine, por alguns segundos, que fosse possível provar que aquele personagem que atravessou religiões, mitologias, pinturas, livros, sermões e medos humanos realmente existe.

Agora imagine algo ainda mais extraordinário:

ele está preso.

Isolado.

Observado.

Incapaz de sair.

Seria tentador imaginar que alguma coisa mudaria no mundo.

Talvez menos violência.
Talvez menos mentira.
Talvez menos crueldade.
Talvez menos traição.

Mas as pessoas continuam fazendo exatamente aquilo que sempre fizeram.

E é nesse momento que a história deixa de ser apenas sobre a existência do Diabo.

Ela passa a ser sobre nós.

Porque, se ele está preso, alguém terá de explicar quem está fazendo o resto.


⚖️ Quando prender o Diabo cria um problema jurídico

Existe ainda uma complicação curiosa.

Mesmo que alguém apareça diante de nós e diga ser o próprio Diabo, isso não resolve uma questão fundamental:

o que, exatamente, ele fez?

Não basta aquilo que acreditamos sobre alguém. Não basta sua reputação. Não bastam séculos de acusações.

Quando o Direito entra pela porta, aparecem outras palavras:

fato, prova, responsabilidade, autoria, culpa, nexo, testemunho, contraditório.

E então uma situação aparentemente absurda começa a produzir perguntas muito sérias.

Podemos responsabilizar alguém pelo que acreditamos que ele tenha feito?

Uma reputação construída durante séculos pode substituir uma prova?

E se algumas das acusações atribuídas ao mais famoso culpado da história não puderem ser demonstradas?

Isso não significa que ele seja inocente.

Talvez signifique algo muito mais incômodo.


🔬 Ciência, Direito, religião e poder entram na mesma sala

A partir dessa premissa, O Dia que Prenderam o Diabo mistura elementos que normalmente encontramos separados.

Ciência e religião.

Direito e filosofia.

Psicologia e comportamento humano.

Mídia e poder.

Culpa e responsabilidade.

Tudo isso dentro de uma narrativa de realismo fantástico, suspense psicológico, investigação e humor.

Porque existe algo particularmente divertido em imaginar instituições humanas tentando administrar burocraticamente uma situação para a qual simplesmente não existe formulário.

E Samuel — como aquele homem passa a ser chamado — percebe rapidamente as contradições das pessoas que tentam compreendê-lo.

Às vezes responde.

Às vezes ironiza.

E, em alguns momentos, faz algo muito mais perigoso:

devolve a pergunta.


🌎 E tudo isso acontece no Ceará

Há ainda uma escolha deliberada na construção do romance: essa história não acontece em Nova York, Londres, Roma ou em algum laboratório cinematográfico perdido na Europa.

Acontece no Ceará.

Fortaleza torna-se o cenário de um acontecimento impossível de permanecer restrito às paredes de um laboratório.

É dali que uma pergunta começa a crescer e atingir cientistas, juristas, religiosos, autoridades, jornalistas e pessoas comuns.

Uma pergunta aparentemente simples, mas que atravessa todo o romance:

De quem é a culpa?

E talvez seja justamente por isso que classificar este livro apenas como uma história sobre o Diabo seria reduzir demais aquilo que ele pretende provocar.


🪞 O verdadeiro personagem talvez seja o leitor

Existe uma diferença entre uma história que entrega respostas e uma história que instala perguntas.

Eu prefiro a segunda.

Porque algumas perguntas permanecem conosco depois que fechamos um livro.

O Dia que Prenderam o Diabo brinca com uma das necessidades mais antigas do ser humano: encontrar uma explicação externa para aquilo que não gostaríamos de reconhecer dentro de nós.

Famílias fazem isso.

Instituições fazem isso.

Governos fazem isso.

Sociedades inteiras fazem isso.

Encontramos culpados, construímos narrativas e, às vezes, seguimos adiante sem fazer a pergunta mais difícil:

qual foi a nossa participação?

É por isso que Samuel talvez seja apenas o começo da história.

O restante pertence às pessoas que estão do lado de fora da máquina.

E, em alguma medida, pertence também a quem está lendo.


📖 Uma comédia filosófica sobre uma pergunta nada engraçada

Apesar de lidar com temas como culpa, livre-arbítrio, prova, memória, responsabilidade e comportamento humano, o romance não pretende transformar essas questões em uma aula.

Elas aparecem dentro da história.

Nos diálogos.

Nos conflitos.

Nas contradições.

E principalmente na ironia de um personagem que talvez tenha passado tempo demais observando a humanidade.

Por isso, O Dia que Prenderam o Diabo pode ser lido como suspense, realismo fantástico, investigação ou comédia filosófica.

Mas existe uma experiência que eu gostaria que permanecesse depois da última página:

Você pode começar o livro tentando descobrir quem é Samuel.
Talvez termine tentando descobrir quem somos nós quando já não existe ninguém em quem colocar a culpa.


🔥 O Diabo já está preso.

Agora falta descobrir o que fazer com o resto.

O Dia que Prenderam o Diabo, de Carlos Henrique Musashi, já está disponível em edição impressa.

Se a pergunta que iniciou este texto provocou alguma coisa em você, talvez seja melhor não procurar a resposta aqui.

Abra o livro.

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Disponível pela Editora Clube de Autores.

Carlos Henrique Musashi
Autor de O Dia que Prenderam o Diabo