🕸️"ENTRE A TRADIÇÃO E A ESTAGNAÇÃO"🕷️ | 🪡Carlos Henrique Musashi✍️
"Entre a Tradição e a Estagnação"
De Carlos Henrique Musashi, em 28 de abril de 2026
Não é raro o mofo nos salões da glória,
onde o tempo, em vez de história, se faz prisão.
Ali, três sombras regem a liturgia tácita:
o culto ao símbolo, que se basta na aparência;
a aversão ao novo, que teme a própria aurora;
e o louvor às relações, mais que à obra erguida.
Não é o templo que falha —
é o desalinho entre o homem e o rito.
Pois há quem construa pontes
em palcos feitos para retratos.
Tu, artífice do gesto e da matéria,
descobriste o peso invisível da criação:
executar é verbo grave,
exige músculo, método e silêncio.
Mas, nessas casas de tradição imóvel,
quem faz se oculta,
e quem diz se ilumina.
Não há, nisso, ofensa pessoal —
há estrutura.
Um jogo cujas regras, antigas como o pó,
premiam o ornamento,
e não o alicerce.
E quando te nomeiam —
não pelo que és, mas pelo que temem —
“o da máquina”, “o da técnica”, “o do artifício”,
não te analisam:
defendem-se.
Pois o novo assusta os que repousam
na segurança do já sabido.
E o rótulo, lançado em tom menor,
não fere à lâmina —
mas corrói à repetição.
Assim se desgasta a reputação
nos círculos fechados,
onde o eco vale mais que a voz,
e a dúvida, uma vez semeada,
floresce em desconfiança.
Mas há um limite —
um teto invisível que se revela
somente aos que ousam tocá-lo.
Tu o tocaste.
E então viste:
enquanto ergues horizontes,
o recinto repete paredes.
Enquanto pensas em escala,
ele se encerra em espelhos.
Daí o incômodo,
essa vertigem sutil de não caber:
não rejeição —
deslocamento.
E o preço de ficar
não se escreve em atas,
nem se mede em títulos.
Paga-se em horas vazias,
em ânimo gasto,
em ideias que murcham antes de nascer.
É o tributo do invisível:
tempo que se esvai,
força que se dissipa,
vida que se adia.
E então compreendes, enfim —
com a lucidez dos que já viram demais:
não és menor por não caber ali.
És maior do que aquilo que te contém.
E partir, nesse caso,
não é abandono —
é coerência.

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