#CRÔNICA "A TIRANIA DO TUMULTO: Quando a Mundiça Assume o Trono 🪑"
"A TIRANIA DO TUMULTO: Quando a Mundiça Assume o Trono 🪑"
🔸️Carlos Henrique Musashi ✍️
Mundiça não é gente — é comportamento.
É um padrão de conduta que se manifesta quando o barulho passa a valer mais do que o critério, quando a presença se mede em decibéis e quando o espaço coletivo é tratado como extensão do próprio ego. A mundiça não tem classe social, não tem ideologia e não depende de cargo específico; ela apenas se instala onde encontra permissividade. E, uma vez instalada, governa pelo tumulto.
Em muitas instituições públicas, o problema central não está nas estruturas, mas nos comportamentos que passam a reger o cotidiano administrativo. Esse padrão de atuação transforma rotinas em espetáculo, reuniões em arenas e decisões em reações impulsivas. Tudo é urgente, tudo é ruidoso, tudo é dramatizado. Resolver, que deveria ser o objetivo, torna-se detalhe.
Nesse ambiente, o excesso vira estilo. Falar alto é confundido com liderança. Interromper passa a ser sinal de autoridade. Organização é vista como rigidez desnecessária. Quem sugere método é rotulado como resistente; quem pede silêncio é tratado como inconveniente. Tal conduta não tolera limites, porque limites exigem autocontenção — virtude pouco cultivada quando o caos é recompensado.
O impacto se intensifica quando esse modo de funcionamento domina setores educacionais ou espaços que lidam com diversidade humana. Em ambientes que acolhem pessoas neurodivergentes e indivíduos com Transtorno do Processamento Sensorial, a desordem constante não é traço de personalidade: é fator de exclusão. Ruídos excessivos, estímulos imprevisíveis e invasões de espaço comprometem não apenas o desempenho, mas a saúde e a dignidade de quem depende de previsibilidade para funcionar plenamente.
🔸Quando o Tumulto Finge Incluir
O problema se agrava de forma quase revoltante quando esse comportamento ocupa cargos de gestão em repartições públicas que lidam diretamente com pessoas neurodivergentes — como escolas e instituições educacionais. Nesses espaços, convivem indivíduos com Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), para quem o excesso de ruído, a desorganização sonora e a imprevisibilidade não são simples incômodos, mas gatilhos reais de sobrecarga cognitiva, exaustão e sofrimento.
Ainda assim, sob essa lógica distorcida de gestão, o barulho vira regra, o improviso vira método e a invasão de espaço vira estilo administrativo. Música alta em ambientes de trabalho, reuniões caóticas, interrupções contínuas e “dinâmicas” ruidosas são tratadas como normalidade — quando, na prática, funcionam como formas silenciosas de exclusão.
O paradoxo revolta porque vem acompanhado de um discurso ensaiado sobre “inclusão”. Fala-se muito em diversidade, empatia e acolhimento. Produzem-se eventos, registros fotográficos e relatórios institucionais. Na prática, porém, a inclusão se limita a uma patota funcional: aqueles que suportam o caos, que não questionam o excesso e que ajudam a sustentar a aparência de normalidade. Cumpre-se tabela, tiram-se fotos, e segue-se adiante. O cotidiano permanece hostil para quem precisa de estrutura, limite e silêncio.
Essa inclusão seletiva não é mero descuido; é escolha institucional. Para quem convive com TPS ou outras formas de neurodivergência, o discurso inclusivo desse modelo de gestão soa como ironia amarga. Não por crueldade explícita, mas por irresponsabilidade continuada. O direito ao sossego passa a ser tratado como capricho; a necessidade de organização, como fragilidade.
Outro efeito nocivo desse padrão comportamental é sua capacidade de se tornar referência institucional. Em ambientes hierarquizados, o que se repete ensina. O grito vira método. A interrupção vira norma. A invasão vira estratégia. Aos poucos, a cultura organizacional se molda ao tumulto, e não à função pública que deveria orientar suas práticas.
O prejuízo é amplo e previsível. Projetos perdem eficiência, profissionais capacitados se afastam, e os mais sensíveis silenciam ou adoecem. A instituição segue funcionando, mas em modo desgaste permanente, consumindo energia para administrar o ambiente, não para cumprir sua missão.
Criticar esse fenômeno não é atacar pessoas, mas afirmar um princípio básico: o espaço público não pode ser governado pelo tumulto. Liderança não se mede por volume, inclusão não se comprova por discurso e autoridade não se legitima pela desordem que produz.
Quando a mundiça assume o trono, o barulho governa. E toda instituição governada pelo caos pode até fazer cena — mas falha no essencial.
Disciplina nunca foi inimiga do entusiasmo.
O verdadeiro inimigo é o caos travestido de liberdade.
📌Mundiça: substantivo de gênero comum, derivado da fusão de "mundo" e "sujeira". Designa o indivíduo cuja existência psíquica e social depende da criação sistemática de tumulto. Não é condição socioeconômica, mas comportamental. Caracteriza-se pela incapacidade de respeitar limites físicos, sonoros ou sociais, pela necessidade patológica de ser epicentro de confusão e pela imposição violenta de sua subjetividade como norma universal. O mundiça não habita o silêncio; foge dele, pois a quietude o confronta com o vazio interior que tenta preencher com caos externo.


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