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sábado, 17 de novembro de 2012

Poema do Menino Jesus


Poema do Menino Jesus
Por, Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), recitado por Maria Bethânia 

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.

(...)

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

(...)

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

(...)

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


sábado, 3 de novembro de 2012

O demônio e a intriga.


Malba Tahan
     Durante as longas peregrinações que empreendeu pelo mundo, o terrível e odiento Enam, o demônio dos olhos chamejantes, foi ter a uma pequena aldeia, muito além do Eufrates, chamada Nagazor. Recebido com acolhedora simpatia pelos habitantes, começou o infernal Enam a agir de acordo com os seus planos. O seu ideal era transformar a pacífica Nagazor num pequenino inferno onde dominasse a discórdia, a cizânia e a desarmonia. Mas todos os esforços do Maligno fracassaram entre as colinas de Nagazor. As artimanhas e maldades do tentador resultaram inúteis.

     Pretendeu semear a discórdia entre os chefes de família e não conseguiu; arquitetou mil e uma desavenças entre as esposas, mas viu cair por terra todos os seus sórdidos artifícios. Insistiam os habitantes de Nagazor em viver em paz e não havia como mudar aquele sereno teor de vida.
Decepcionado com o malogro de seus torpíssimos embustes, retirou-se o Demônio.
     - Eis um recanto que não me interessa. Não vale a pena perder tempo com essa gente desfigurada e inerme. Vou em busca de outros climas.
     A pequena distância da aldeia topou o demônio com um rio de praias límpidas e frescas. Sentou-se na areia clara e pôs-se a meditar. Poucos minutos depois surgiu uma mulher que vinha ao rio lavar as suas roupas. Era uma rapariga forte, de ombros largos, fisionomia simpática, tostada pelo sol. Sob o pano azulado que lhe envolvia a cabeça repontavam pequenas manchas de cabelo castanho; os seus olhos eram negros e vivos.
Ao vê-la chegar Enam sorriu meio desconfiado. A mulher parou, deixou cair ao chão a pesada trouxa que trazia, e encravando resoluta as mãos na cintura encarou com arrogância o maligno viajante.
    Que pretendes aqui? - inquiriu com petulante desembaraço. - A tua fisionomia não me parece estranha. És Enam, o mal-intencionado Enam!
     - Sim, minha boa amiga - volveu o Maligno com voz sucumbida. - Sou Enam, o terrível, mas o período áureo de minha vida já terminou; encontro-me em desastrosa e irremediável decadência; as almas fogem de mim e escapam de minhas mãos. Vejo-me agora despojado de meu tão temido e secular poder. Fui arrasado por essa gentinha impertinente de Nagazor.
E o Demônio relatou à lavadeira, com todas as minúcias, o seu fracasso na aldeia e a inutilidade dos seus embustes e artimanhas.
     - Não passas de um simplório - garganteou a mulher, imprudente, sorrindo com desprezo. - Ainda não percebeste que os teus recursos satânicos se limitam a truques obsoletos e ridículos? As tuas armas, meu velho, outrora tão temidas pelos homens, são no século em que vivemos irrisórias e grotescas. Tens que renovar os teus planos e modificar os teus métodos.
     E, depois de ligeira pausa, encarou o demônio cruzando os braços num desafio, com um relâmpago de inspiração no olhar:
     - Queres apostar comigo? Sou capaz de transformar a pacatíssima aldeia de Nagazor, de ponta a ponta, num verdadeiro inferno. 
     Duvido muito! - retorquiu o demônio, retorcendo a boca. - Bem vejo que não conheces aquela gente insípida de Nagazor. Mas escuta: se fizeres o que acabas de prometer receberás de mim uma bolsa com mil moedas de ouro.
O demônio e a intriga,  por Malba Tahan
     - Combinado! - bradou a lavadeira, endireitando o busto. - Combinado! Vou já para Nagazor. Durante a minha ausência cuidarás destas roupas. Verás qual é a minha maneira de agir.
     E, sem mais palavra, a mulher tomou o caminho da aldeia. E ao chegar a Nagazor bateu à porta de uma casa. Residia ali uma das melhores famílias. - A lavadeira, fingiu-se muito ingênua e bondosa, pediu para falar à dona da casa, a quem ofereceu os seus préstimos como ótima lavadeira, sendo logo contratada. Enquanto entrouxava a roupa suja, ergueu os olhos para o lindo rosto da senhora, e exclamou numa atitude de contemplação envaidecida:
    - Que bandidos os homens! Todos iguais, malditos sejam! Não se pode confiar no melhor deles. Gostam de todas as mulheres, louras ou morenas, menos de suas próprias esposas!
     - Que pretendes insinuar com isso? - inquiriu a dama, mordida pelo veneno da desconfiança, arregalando os olhos sobressaltados.
    - Não sei mentir acudiu a lavadeira, sem hesitações na voz. - Não sei mentir e gosto de revelar sempre a verdade para aqueles que parecem dignos e bondosos. Vindo para cá, quem havia eu de encontrar, entre as sombras do parque, senão teu marido, namorando outra mulher? E, ainda por cúmulo da ingratidão, derretia-se por uma pequena feia, horrorosa; cara de bruxa! Como pode ele desprezar uma beleza como tu, por aquele estafermo, é o que não entendo! Mas não chores, querida patroa, não te aflijas. Não faças caso dessa ingratidão de teu marido. Sou entendida em artes e feitiçarias. Conheço um remédio infalível para fazer teu marido, bilontra e ingrato, retornar ao bom caminho. Aplica-lhe esse remédio e nada mais terás a recear dele. Asseguro-te que ele, depois da primeira dose, nunca mais terá olhos para outra mulher. Escuta bem o que deves fazer: quando o teu volúvel esposo chegar, fala-lhe com brandura; não o deixes desconfiar de coisa alguma. Logo depois que ele pegar no sono apanha a navalha e corta-lhe, com muito cuidadinho, três pêlos da barba, sendo dois pretos e um branco, ou três pretos. É preciso agir com cautela a fim de que ele não perceba nada. Depois dá-me esses pêlos; com eles, prepararei um remédio seguro, que teu marido será, para o resto da vida, de uma fidelidade a toda prova. Odiará todas as outras mulheres e será teu, só teu, com um amor profundo, inalterável e eterno.
     Apanhando a trouxa, a lavadeira saiu à procura do marido da dama e, com a voz e os modos duma criatura consternada, disse-lhe que vinha revelar um segredo horrível; não sabia se teria forças para tanto, preferiria até morrer. O marido naturalmente quis saber do que se tratava, exigiu que ela falasse a verdade e fez sentir que não admitia desculpas ou evasivas.
     - Pois bem - começou a lavadeira, tomando-o à parte, e olhando em roda cautelosamente. – Acabo de sair da tua casa onde minha ama, tua esposa, me deu estas roupas para lavar; enquanto eu estava lá chegou um belo moço, de olhos claros, muito bem trajado, e os dois se retiraram para aquele pequenino quarto que fica ao lado da sala. Pus-me a escutar e ouvi o moço dizer à tua senhora: "Mata o teu marido, querida, e eu casarei contigo". Ela respondeu que não se animava a fazer coisa tão horrível. "Ora - tornou ele com um pouco de coragem, - é muito fácil. Quando teu marido adormecer, corta-lhe o pescoço com uma navalha bem afiada. Aceitarão todos a morte dele como um acidente ou como um suicídio e nada mais. Quem ousaria desconfiar de ti?". A tua esposa relutou um pouco mas acabou por aceitar a idéia e prometeu ao jovem de olhos claros que esta mesma noite executaria o plano.
     Fervendo de raiva, mas perfeitamente calmo na aparência, o marido voltou à casa, sendo cordialmente recebido pela zelosa companheira. À noite, já um pouco tarde, foi para o leito e fingiu adormecer. Pôs-se, entretanto, a vigiar os menores movimentos da esposa.
     Ao vê-la, afinal, abrir a gaveta e apanhar a navalha para cortar os três pêlos necessários ao feitiço da lavadeira, levantou-se num salto, arquejante de cólera, avançou como um louco para a mulher, arrancou-lhe a navalha das mãos e, numa alucinação desesperada golpeou-a várias vezes, prostrando-a sem vida, numa poça de sangue.
     A notícia do crime espalhou-se: os parentes da morta, na certeza de sua inocência, uniram-se para vingá-la e mataram o perverso e sanguinário marido. Os irmãos do assassinado resolveram tomar desforra.
Incendiaram a casa dos assassinos e mataram meia dúzia deles. Lavrou o ódio em Nagazor. E antes de terminar a luta muitas vidas foram sacrificadas e muitos lares arrasados.
     Enam, o demônio dos olhos chamejantes, fiel à palavra dada, pagou a aposta. E, desse dia em diante, passou a usar da intriga como sua arma predileta.
     Bem dizia o sábio:
    - O que o Demônio, com mil perversidades e embustes, não consegue em vinte dias, a intriga realiza, com a maior segurança, em meia-hora.

Mapa!

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