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terça-feira, 21 de julho de 2009

Eu, Deus e você

     Autor: ???

     Um dia pensando em você comecei a sentir saudades, um aperto muito forte  no coração, foi o bastante, bastante para que eu começasse a perder minha própria razão, então chorei e pensei, ou melhor, dei assas ao meu pensamento e voei alto desfiz-me das amarras negativistas que me prendem a este mundo calmo, Joguei para longe todas as crenças e temores que me separam do todo e voei, voei além das estrelas, além dos astros, além dos mundos, além do universo, voei além do principio e do fim, e vi Deus, vi Deus em todo o seu esplendor e falei com Deus com todo o seu o seu esplendor e Pedi a Deus por todo o seu esplendor:
    - Me deixa ser o sol? - E ele me fez sol e eu fui sol e brilhei num ponto do universo no centro do sistema e iluminei a terra, e fiz nascer o dia e vi você e brilhei pra você e toquei você, não como quis, mas como pude. Eu queimei tua pele, corei teu rosto e te vi através das janelas das frestas no caminho. E eu te adorei e você me adorou, e ai veio à noite e a terra girou. Eu te perdi não mais te vi, você se foi e eu chorei. Voltei a Deus, falei com Deus, Pedi a Deus:
    - Me deixa ser a lua? - E ele me fez lua e eu fui lua. Iluminei a noite fui sem hora na noite e eu brilhei no céu e te vi e te segui não como quis mais como pude. E iluminei você e sorri pra você, e tornei mais bela a palidez de teu rosto, branco de tua pele e velei teu sono te adorei. E ai veio o dia e a terra girou novamente eu te perdi não mais te vi você se foi e eu chorei. Tornei a Deus e vi Deus falei com Deus, Pedi a Deus:
    - Me deixa ser a terra?-E ele me fez terra e eu fui terra e vivi sobre o sol e sobre lua e me vesti de relva e me perfumei com flores, e me enfeitei com rios lagos e montes para te agradar, e você se agradou e eu me deixei ser tocado por você, não como quis mais como pude. E você pisou a relva que me vestia e você cheirou as fores todo dia e você bebeu de minha água se nutriu de meus frutos admirou meus rios e lagos e subiu sobre meus montes e me admirou e me sorriu e me curtiu e ai veio o homem sentiu ciúmes, e me invejou e me depredou e poluiu meus rios e lagos. Rasgou minha relva e derrubou meus montes murchou minhas flores e você, você não mais me sorriu, não mais me curtiu e você calçou teus pés sobre asfalto e calçadas e eu te perdi não mias te vi, você se foi e eu chorei. Voltei a Deus, e vi Deus, falei com Deus, pedi a Deus:
    - Me deixa ser o sangue dela?-E ele me fez sangue e eu fui sangue e me tornei vida e flui, deslizei, corri e caminhei dentro de você. Eu te dei cor e te tornei saudável e você me sentiu e eu te toquei, te toquei não como quis mais como pude. E você me sentiu e eu habitei no mais intimo de suas entranhas e eu te fui vital, você me adorou, você me curtiu e teve medo de me perder, e quando me via sair de você, você chorava e reclamava e não gostava, e ai veio um dia, um dia em que você me agitou, me fez correr mais rápido dentro de você e eu corri passei como um raio no teu coração e ele palpitou, bateu, mas forte se descontrolou e você me expulsou de teu rosto, e me expulsou de suas mãos, você gelou, você suou você perdeu o domínio sobre si e sobre mim, você amou. Eu me perdi e eu gelei, me acabei e você sorriu para um amor que não era eu e você me deu a esse amor e viveu por esse amor, viveu com esse amor. Eu te perdi não mais te vi, você se foi e eu chorei. Uma vez mais tor!
nei a Deus e vi Deus, falei com Deus, pedi a Deus:
    - Me deixa ser um homem, me deixa ser aquele que no coração dela fez morada, me deixa ser aquele por quem ela chora, a quem ela adora como um ídolo, venera como um Deus, acaricia como uma criança. E ele me disse:
    - Não-E eu não entendi e chorei, me frustrei, indaguei e ele me disse:
    - Serás homem, mas não serás o que no coração dela fez morada, ele é o que veio antes de ti e o que vai ficar, tu, porém a amarás, mas não a terás, a buscarás, mas não a encontrarás, a venerarás, mas não a tocarás. Terás outra mulher e terás filhos com ela e terás uma família, mas ela, a ela quem tu verdadeiramente amas, essa não terás e este será teu julgo e este será teu castigo, castigo perpétuo por ter me pedido além do que te havia dado para consolo teu porem te darei domínio sobre as palavras e as dominarás e brincarás com elas e a subjugarás a lucidez do teu raciocínio e comporás com elas e versejarás com elas e farás grandes obras com elas e este será teu consolo que é dado por mim, e eu te dou para que sempre que a saudade bater as portas do teu coração e começares a perder a tua própria razão, escreverás e te dominarás e te aliviarás.
    Eu voltei de Deus, pedi perdão a Deus e ele me fez homem e eu sou homem. Vivo sobre o sol, sobre a lua, sobre a terra, e tenho também sangue nas veias. Eu comecei a pensar em você novamente, comecei a sentir saudades, comecei a perder a minha própria razão. Eu estou escrevendo, eu estou me dominando, eu estou me aliviando.

O poeta

Vinicius de Moraes

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Neko no Myojutsu - As Tecnicas Maravilhosas de Um Gato

Neko no Myojutsu - As Tecnicas Maravilhosas de Um Gato
Retirada da coleção de ensaios intitulada "Inaka Soshi" (o Taoismo do Campo), escrito em 1727 pelo sábio Issai Chozan (Tanba Jurozaemon Tadaaki, em 1659-1741)

    Era uma vez um mestre de esgrima chamado Shoken. Em  sua casa vivia uma ratazana, uma verdadeira praga. Ela aparecia andando para baixo e para cima, até a luz do dia. Certa vez, Shoken fechou a  porta, para que o gato pudesse apanhá-la. Porém, ela pulou no focinho do gato e o mordeu tanto, que ele fugiu gritando. Essa tentativa fracassou.
    O dono da casa trouxe então outros gatos da vizinhança, que gozavam da fama de corajosos, e os colocou dentro do quarto. A ratazana se acocorou num canto e, tão logo um gato se aproximava, ela pulava, mordia e punha o gato a correr. A ratazana parecia tão feroz, que todos os gatos hesitavam em se aproximar uma segunda vez. Shoken ficou furioso, e resolveu apanhar ele mesmo a ratazana e matá-la.  Porém, apesar de sua destreza, a ratazana escapava a cada golpe do mestre de sua esgrima, e este não conseguiu acertá-la. Em suas tentativas, ele dilacerou portas, shojis e karamanis. Mas a ratazana parecia deslizar no ar, rápida como um raio, escapando de cada um dos seus golpes: finalmente ela pulou em seu rosto e o mordeu. Banhado de suor, ele chamou seu ajudante e disse: "Parece que a seis ou sete léguas daqui há um gato que dizem ser o mais esperto do mundo. Vá e traga-o aqui!". O empregado trouxe o gato. Este não parecia distinguir-se dos outros gatos, não aparentava ser especialmente inteligente, nem feroz. Por isso, ao vê-lo, o mestre de esgrima não alimentou grandes esperanças; mesmo assim, entreabriu a porta e o deixou entrar. O gato entrou muito tranquilo, devagarinho, como se não esperasse nada de extraordinário. A ratazana, entretanto, teve um sobressalto e permaneceu imóvel. O gato simples mente foi se aproximando, muito devagar, agarrou-a com a boca e a levou para fora.


    Nessa noite, os gatos vencidos reuniram-se na casa de Shoken, ofereceram o lugar de honra ao velho gato, fizeram uma respeitosa reverência diante dele e disseram, modestos: "Todos nós gozamos da reputação de ser bons trabalhadores. Todos nós nos exercitamos neste ofício, e afiamos nossas garras de modo a poder vencer toda espécie de ratos, e até doninhas e gambás. Nunca poderíamos imaginar que existisse uma ratazana tão forte! Como é que você conseguiu vencê-la tão facilmente? Não guarde segredo da sua arte; por favor, revele-a para nós". Então o velho gato sorriu e disse: "É verdade que todos vocês, gatos jovens, são trabalhadores esforçados. Mas desconhecem o caminho correto. Por isso, ao se depararem com alguma coisa inesperada, falham. Mas primeiro contem-me como vocês têm praticado."
    Um gato preto aproximou-se, então, e disse: "Sou descendente de uma família famosa pela caça de ratos. Por isso decidi seguir o mesmo caminho. Sei pular sobre uma muralha de dois metros. Sei me espremer num buraco tão pequeno, que só um  rato é capaz de atravessar. Desde criança tenho praticado todas as artes acrobáticas. Até mesmo ao acordar, ainda meio adormecido e com os reflexos lentos, basta-me ver, de relance, um rato passar, e já o peguei! Mas a ratazana de hoje foi mais forte do que eu, e sofri a mais terrível derrota de toda a minha vida. Estou envergonhado."
    O velho gato retrucou: "O que você praticou nada mais foi do que a técnica (shosa, a mera arte física), mas você está obcecado com a pergunta: como vencer? E, portanto, fica apegado a uma meta! Quando os antigos mestres ensinavam a "técnica", eles o faziam para indicar uma forma de caminho (michisuji). Sua técnica era simples e, no entanto, encerrava a mais elevada verdade.
    Seus sucessores, porém, só se ocupam com a técnica. É claro que descobriram trejeitos novos, e por isso seguiram a receita do tipo "fazendo isto ou aquilo, se obtém tal e tal resultado". Mas qual é o verdadeiro resultado? Nada além de certa destreza. Assim foi esquecido o antigo modo tradicional, e os praticantes usaram sua inteligência até a exaustão, cada qual tentando superar a técnica do outro. E agora já não sabem como continuar. Isto é o que sempre ocorre quando só se presta atenção à técnica e quando as pessoas confiam inteiramente na própria inteligência. Esta é deveras uma função do espírito, mas se não for baseada no caminho e apenas visar  a habilidade, esta o colocará na senda errada, e tudo o que você conseguir será prejudicial.Procure a verdade na profundidade do seu Ser e pratique de agora em diante o caminho correto.


    A seguir, um grande gato tigrado aproximou-se e disse: "Acredito que, nas artes marciais, só o espírito importa. Por isso, desde cedo, exercitei essa força (ki wo neru - Mencio).Resultou em  que sinto o meu espírito "rígido como o aço", livre, carregado  do "espírito ki" que preenche o céu e  a terra . Já ao ver o inimigo, esse espírito onipotente o prende, e obtenho a vitória antes mesmo de começar. Só então faço o primeiro gesto! Inconscientemente, cada movimento acontece de acordo com o que a situação requer. Adapto-me ao "som" do meu oponente, lanço o meu poder sobre o rato, faço com que vá para a direita ou para a esquerda a meu bel-prazer, antecipando-me a cada gesto dele. Não me importo absolutamente com a técnica, que surge espontaneamente. Quando um rato vai passando, eu o fito com o olhar, e imediatamente ele cai, é minha presa. Mas essa ratazana misteriosa aparece sem forma e desaparece sem deixar traços. O que será isso? Eu não sei!"
    Então o velho gato lhe disse: "O que você treinou é o efeito que provém da grande força que preenche o céu e a terra. Mas você adquiriu apenas uma força psíquica, que nada tem que ver com um bem que realmente mereça esse nome. O mero fato de  estar consciente da força com a qual você deseja vencer já inibe a vitória. O seu eu está em jogo.E se por acaso o eu do outro  for mais forte que o seu, o que acontece? Se você quer vencer o inimigo com a sua força superior, ele joga a força dele contra a sua. Será que você imagina realmente que será sempre mais forte, e que todos os outros serão mais fracos? Como você agirá se houver algo que a sua grande força, mesmo com a melhor boa vontade, não conseguir vencer? Esta é a pergunta a ser formulada! A força espiritual interior que você sente "livre" e "dura como o aço", capaz de "preencher o céu e a terra" não  é a grande força em si (ki no sho), porém o seu reflexo.
    É o seu próprio espírito, portanto, apenas a sombra do Grande Espírito. É verdade que, às vezes, se apresenta como a grande força oniabrangente, mas na realidade trata-se de algo totalmente diferente. O espírito a que Mêncio se referia é forte porque permanece iluminado pela grande claridade. Porém o seu espírito só é imbuído de força em certas circunstâncias. Sua força e aquela mencionada por Mêncio procedem de origens diferentes, e por isso também atuam de modo diverso. São tão diferentes como o eterno fluxo de um rio, como por exemplo, o Yang-tsé, e uma corrente repentina que se forma durante a noite. Mas qual é o espírito a ser preservado quando você se encontra diante de algo que não pode ser vencido por nenhuma força espiritual (ki sei)? Esta é a pergunta a ser formulada! Diz um ditado: "Um gato encurralado morde até outro gato!"
    Se o inimigo está encurralado, correndo perigo de vida, ele já não se importa com nada. Ele esquece a própria vida, esquece todo o sofrimento, esquece de si mesmo, não pensa em vitórias ou derrotas. Ele nem sequer nutre a intenção de cuidar da sua própria segurança. E por isso torna-se duro como o aço. Como será possível vencê-lo através dos poderes espirituais que você atribuia a si mesmo?"
    "A essa altura, um gato mais velho aproximou-se lentamente e disse: "Sim, tudo o que você disse é verdade. Por mais forte que seja, a força psíquica tem uma forma (katachi). E tudo aquilo que tem uma forma, por menor que seja, pode ser tocado. Por isso, há muito tempo estou a exercitar lentamente a minha alma (kokoro, a força do coração). Não pratico a força que domina espiritualmente o outro (O-sei usado pelo segundo gato). Também não me fico a me debater, como o primeiro gato. Faço as pazes com o meu oponente, permito que se forme uma unidade com ele, e não me oponho a ele de modo algum. Se o outro for mais forte do que eu, simplesmente me rendo e  finjo que faço o que ele quer. De certo modo, minha arte consi ste em pegar as pedrinhas que são arremetidas sobre uma cortina solta. Por mais forte que seja, o rato que queria me agredir nada encontra que possa agarrar. Hoje, porém, essa ratazana simplesmente resistiu ao meu jogo. Ela ia e vinha tão misteriosamente quanto o próprio Deus. Nunca vi nada igual."
    Então o velho gato replicou: "O que você chama fazer as pazes não procede da essência intríseca, nem da grande natureza. É uma paz elaborada, artificial, um truque. Você consciente/mente quer iludir o intuito agressivo do seu oponente. Mas por pensar a respeito, mesmo durante um breve momento, ele nota a sua intenção. Se você tenta uma "reconciliação" nesse estado de espírito, só confunde e obscurece o seu próprio instinto agressivo, e a precisão de sua percepção e da sua ação fica prejudicada. Tudo aquilo que você fizer com uma intenção inibe o ímpeto original e secreto da grande natureza, e perturba o fluxo do seu movimento espontâneo. Como é que você pode esperar um milagre deste modo? Só quando você  não pensa em nada, quando não deseja nem faz nada, e se rende incondicionalmente ao seu próprio ritmo e à vibração da sua natureza intrínseca (shizen no ka), quando já não tem nenhuma forma palpável, é que já nada mais no mundo pode surgir  como contraforma. Então já não existe nenhum inimigo que possa  se opor a você."
    Não acredito, por um segundo sequer, que tudo aquilo que vocês praticaram tenha sido inútil. Tudo, absolutamente tudo, pode converter-se numa forma de caminho. A técnica e o caminho também podem ser uma única e a mesma coisa, e o espírito que tudo governa estará então contido na técnica e falará através dos gestos do corpo. A força do grande espírito (ki) serve à pessoa humana (ishi). Se o seu ki é liberado, você está eternamente livre para ir ao encontro de tudo, da maneira correta. Se o seu espírito está genuinamente reconciliado e em paz, você não pode ser atingido nem com pedras, nem com ouro, e não precisará de esquemas especiais para entrar em luta. Uma única coisa conta: que não haja nem um sopro de consciência do ego em jogo, se não tudo estará perdido. Se você pensar a respeito, nem que seja por uma mínima fração de tempo tudo se torna algo artificial e não fluirá mais a partir da essência, da vibração primordial do corpo do caminho (do-tai). Se isso ocorre, então o seu inimigo também resistirá, em vez de fazer o que você espera dele. Portanto, que espécie de método e de arte devem ser empregados? Só quando você estiver livre de qualquer tipo de consciência (mushin), quando você agir sem agir, sem intenções ou truques, em harmonia com a grande natureza de todas as coisas, é que você estará no caminho correto. Deixe portanto,de lado, qualquer intenção, exercite-se completamente destituído de intenções, e deixe simplesmente que as coisas aconteçam a partir da sua essência intrínseca, de sua verdadeira natureza.
    Esse caminho é sem fim e inesgotável. "E o velho gato acrescentou ainda algo surpreendente: "Vocês não devem acreditar que o que eu lhes disse hoje seja a última palavra. Há pouco tempo vivia numa aldeia vizinha um velho gato. Ele dormia o dia inteiro. À sua volta, porém, não havia o menor vestígio de qualquer coisa que pudesse assemelhar-se a alguma força espiritual. Ele permanecia deitado como um tronco. Ninguém jamais o viu apanhando um rato por perto.Mas não havia o menor vestígio de rato onde quer que ele aparecesse ou permanecesse. Eu o procurei certo dia e lhe pedi que me explicasse esse fenômeno. Ele não me respondeu. Repeti minha pergunta três vezes. Ele se calou. Na realidade, não se tratava de não querer responder, pois ele evidentemente não sabia o que dizer. E então eu soube: "Aquele que sabe não diz, e aquele que diz não sabe". Este gato havia se esquecido de si mesmo e de tudo quanto o rodeava. Havia se convertido em "nada", havia alcançado o mais alto nível de ausência de intenção. Poderíamos até afirmar que ele havia encontrado o divino caminho da "cavalaria": vencendo sem matar. Falta-me ainda percorrer um longo caminho para chegar lá."


    Ao ouvir isso tudo, Shoken indagou: "O que significa não haver um eu, nem um antieu, não haver sujeito nem objeto?" E o gato replicou: "Quando há um eu, há também um adversário. Quando   o homem não se apresenta como um eu, também não há um adversário.  Adversário é o princípio da oposição. Enquanto as coisas mantêm uma forma, implicam a existência de uma antiforma. Sempre que se define qualquer coisa, ela passa a ter forma própria. Se a minha essência íntima é desprovida de forma, não existe a sua antiforma. Não havendo oposição, nada se opõe a nada. E isso significa o seguinte: não há um eu, nem um antieu. Ao se soltar completamente, ao se tornar totalmente livre, fundamentalmente desapegado de todas as coisas, o homem se encontra em harmonia com o mundo, tornar-se Um com as coisas na grande Unidade Total. Mesmo se a forma do seu oponente se extinguir, ele permanece completamente alheio a esse desaparecimento. Não se trata de não perceber essa extinção, mas de não se fixar nisso, de não se ater a isso. Seu espírito continua a se movimentar livremente, isento de qualquer fixação, e suas ações fluem diretamente da sua essência intrínseca.
    "Se o nosso espírito já não se apega mais a nada, livre de todo e qualquer apego, então o mundo, tal como é, será completamente nosso, será Um conosco. Isso significa que agora nós o aceitamos, transcendendo o bem e o mal, a simpatia ou a antipatia. Nada mais nos prende, e também a nada mais nos agarramos. Todas as oposições que nos aparecem - ganho ou perda, bem ou mal, alegria ou dor - provêm de nós mesmos. Por isso não há nada entre o céu e a terra que seja tão valioso para nós como o conhecimento da nossa própria natureza intrínseca. Dizia um antigo  poeta: "Um grãozinho de poeira no seu olho, e os três mundos são ainda demasiado estreitos; se já não nos importamos com nada, a menor cama ainda será grande demais." Ou em outras palavras: um grãozinho de poeira, ao entrar em nosso olho, impede que ele se abra, pois algo atrapalha a visão clara, que só acontece quando não há nada no interior do olho. Isso pode  ser uma metáfora do Ser - a luz que brilha e ilumina, em si mesma é completamente isenta de tudo o que é "qualquer coisa". Mas quando qualquer coisa se coloca diante do Ser, essa imagem destrói a sua virtude. "E outro poeta dizia: "Se você está rodeado por cem mil inimigos, então aquilo que você é, na sua própria forma, fica esmagado. Mas a natureza intrínseca é sua, e permanece sua, por mais forte que seja o inimigo. Pois nenhum inimigo pode jamais penetrar."Dizia Confúcio: "A essência intrínseca não pode ser roubada nem mesmo de um homem pobre. Mas se o seu espírito torna-se confuso, sua essência intrínseca volta-se contra ele."
    "Isto é tudo o que eu lhes posso dizer. Penetrem no interior de vocês mesmos, e procurem conhecer-se melhor. Um mestre só pode tentar transmitir algo ao aluno e tentar explicá-lo. Porém,  só você mesmo pode reconhecer a verdade e apropriar-se dela. A isso se chama "autoconhecimento" (jitoku). A transmissão se dá de coração a coração (ishin denshin). Trata-se da transmissão de um dom por intermédio de sendas extraordinárias, que transcendem o vazio e a erudição (kyogai betsuden). O que não  significa que contradizem os ensinamentos do mestre. Quer dizer apenas que mesmo um mestre não é capaz de transmitir a verdade. E isto não é válido somente para o Zen. Desde os exercícios espirituais dos antigos, desde a arte de aprimoramento da alma até as belas artes, o elemento vital sempre foi o autoconhecimento, e este só pode ser transmitido de coração a coração,além de qualquer ensinamento comunicado. O propósito de cada ensinamento é apenas: apontar e ressaltar aquilo que todo homem já possui sem saber.Também não existe nenhum segredo que o mestre possa "passar" para o discípulo. É fácil ensinar. Ouvir é fácil. Difícil é conscientizar-se daquilo que se possui dentro de si mesmo, encontrá-lo e tomar posse dessa essência adequadamente. A isso chamamos olhar para dentro de si mesmo, a isso denominamos visão da essência (ken-sei, ken-sho). Se isso ocorrer, alcançamos o satori. É o grande despertar do sonho, das ilusões  e dos enganos. Despertar - vislumbrar a nossa natureza intrínseca, perceber a própria verdade - é tudo a mesma coisa."



quarta-feira, 15 de julho de 2009

"AQUELA DOSE DE AMOR"

AQUELA DOSE  DE  AMOR
Antônio Francisco

Um certo dia eu estava
Ao redor da minha aldeia
Atirando nas rolinhas
Caçando rastros na areia
Atrás de me divertir
Brincando com a vida alheia.

Eu andava mais na sombra
Devido ao sol muito quente
Quando vi uma juriti
Bebendo numa vertente
Atirei ela voou
Mas foi cair lá na frente.

Carreguei a espingarda
Saí olhando pro chão
Procurando a juriti
Nos troncos do algodão
Quando surgiu um velhinho
Com um taco de pão na mão

O velho disse:  - Senhor
Não quero lhe ofender
Mas se está com tanta fome
E não tem o que comer
Mate a fome com este pão
Deixe este pássaro viver !

Eu disse: - Muito obrigado
Pode guardar o seu pão
Eu gasto mais do que isto
Com a minha munição
Eu mato só por prazer
Eu caço  por diversão.

O velho disse: - É normal
Esse orgulho do senhor
E todo esse egoísmo
Que tem no interior
É porque falta em seu peito
Aquela dose de amor.

Se eu tivesse botado
Ela no seu coração
Você jamais mataria
um pardal sem precisão
nem dava um tiro num pato
apenas por diversão.

Eu fiquei muito confuso
com as frases do ancião
aquelas suas palavras
tocaram meu coração
derrubando o meu orgulho
e a vaidade no chão.

Vali-me da humildade
E disse perdão senhor
desculpe a minha arrogância
mas lhe peço por favor
que me  conte esta historia
sobre essa dose de amor

O velho disse:  - Pois não
Vou explicar ao senhor
Porque mesmo sem querer
Sou o maior causador
De hoje em dia o ser humano
Ser tão carente de amor.

Isso tudo aconteceu
há muitos séculos atrás
quando meu pai fez o mundo
terras, mares, vegetais
me pediu prá lhe ajudar
no último dos animais.

Pai me disse:-Filho eu fiz
da formiga ao pelicano
botei veneno na cobra
bico grande no tucano
agora estou terminando
este animal ser humano.

Mas ficou meio sem graça
este animal predador
o couro não deu prá nada
a carne não tem sabor
na cabeça tem juízo
Mas no peito pouco amor.

Por isto que eu lhe chamei
prá você lhe consertar
botar mais amor no peito
lhe ensinar a amar
e tirar desta cabeça
o desejo de matar.

Depois disse:  - Filho vá
amanhã lá no quintal
na casa dos sentimentos
perto do pote do mal
traga uma dose de amor
e bote  nesse animal.

De manhã eu fui buscar
aquela dose sozinho
mas  na volta eu me entreti
brincando com um passarinho
perdi a dose de amor
numa curva do caminho.

Quando eu notei que perdi
voltei correndo prá trás
procurei por todo canto
mas cadê eu achar mais
aí eu fiz a loucura
que toda criança faz.

Voltei peguei outra dose
igualzinha a do amor
o vidro da mesma altura
o rótulo da mesma cor
cheguei em casa e botei
no peito do predador.

Mas logo no outro dia
meu pai sem querer deu fé
do animal ser humano
chutando um sapo com o pé
e no outro ele mangando
dos olhos do caboré.

Vendo aquilo pai chorou
ficou triste e passou mal
me chamou e disse: - Filho
o bicho não ta normal
o que foi que você botou
no peito desse animal ?

Quando eu contei a verdade
de tudo aquilo que eu fiz
pai disse tremendo a voz
eu sei que você não quis
mas você botou foi ódio
no peito desse infeliz !

Esse bicho inteligente
com esse ódio profundo
com pouco amor nesse peito
não vai parar um segundo
enquanto não destruir
a ultima célula do mundo.

Depois daquelas palavras
chorei como um santo chora
quando foi a meia noite
eu saí de porta afora
e nunca mais eu pisei
na casa que papai mora.

Daquele dia prá cá
é essa a minha pisada
procurando aquela dose
em todo canto de estrada
pois sem ela o ser humano
prá meu pai não vale nada.

Sem ela vocês humanos
não sabem dar sem pedir
viver sem hipocrisia
ficar por traz sem trair
nem distante do poder
nem discursar sem mentir.

Sem ela vocês trucidam
e batizam os crimes seus
na era medieval
queimaram bruxos e ateus
e perseguiram os hereges
usando o nome de Deus.

Sem ela foram prá África
e fizeram a escravidão
com grilhões do preconceito
escravizaram o irmão
Com a espada na cintura
e uma bíblia na mão.

O velho disse: - Perdoe
ter tomado o tempo seu
consertar vocês humanos
é um problema só meu
aí o velho sumiu
do jeito que apareceu.

E eu fiquei ali em pé
coçando o queixo com a mão
pensando se era verdade
as frases do ancião
ou se tudo aquilo era fruto
de minha imaginação.

E naquele mesmo instante
vi passando na estrada
a juriti que eu chumbei
com uma asa quebrada
mas não tive mais coragem
de atirar na coitada.

Joguei fora a espingarda
voltei olhando pro chão
procurando aquela dose
nos troncos do algodão
prá guarda-la com carinho
dentro do meu coração.

Se acaso algum de vocês
tiverem a felicidade
de encontrarem aquela dose
eu peço por caridade
Derramem todo o sabor
Daquela dose de amor
No peito da humanidade.

Biografia
Antônio Francisco Teixeira de Melo 
Nasceu em Mossoró em 21 de outubro de 1949.  É um cordelista potiguar.É filho de Francisco Petronilo de Melo e Pêdra Teixeira de Melo. Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Poeta popular, cordelista, xilógrafo e compositor, ainda confecciona placas. Aos 46 anos, muito tardiamente, começou sua carreira literária, já que era dedicado ao esporte, fazia muitas viagens de bicicleta pelo Nordeste e não tinha tempo para outras atividades. Muitos de seus poemas já são alvo de estudo de vários compositores do Rio Grande do Norte e de outros estados brasileiros, interessados na grande musicalidade que possuem. Em 15 de Maio de 2006, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira de número 15, cujo patrono é o saudoso poeta cearense Patativa do Assaré. A partir daí, já vem sendo chamado de o “novo Patativa do Assaré”, devido à cadeira que ocupa e à qualidade de seus versos.

     É autor dos poemas, “Meu Sonho”, “O Guarda-Chuva de Prata”, “Os Sete Constituintes” ou
 “Os Animais têm Razão”, “Aquela Dose de Amor”, “A Oitava Maravilha” ou a “Lenda de Cafuné”, “
A Cidade dos Cegos” ou “História de Pescador”, “As Seis Moedas de Ouro”, “A Arca de Noé”,
“Do Outro Lado do Véu”, “Confusão no Cemitério”, “O Ataque de Mossoró ao Bando de Lampião”,
“A Lenda da Ilha Amarela”, “Um Conto bem Contado”, “A Casa que a Fome Mora”, “Um Bairro Chamado Lagoa do Mato”,
“O Duelo de Bangala”, “O Feiticeiro do Sal”, “Uma Carrada de Gente”, “No Topo da Vaidade”,
“Uma Carta para a Alma de Pero Vaz de Caminha”,  entre outros.





terça-feira, 14 de julho de 2009

QUASE

De: Luís Fernando Veríssimo

    Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
    É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
    Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
    Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
    Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
    A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
    Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
    O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
    Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
    Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.
    De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
    Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
    Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


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